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Parkinson antes dos 50: também pode atingir adultos jovens e desafia planejamento de vida

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  • 2026-04-07
  • Sem comentários
  • 3 minutos de leitura

Neurocirurgião funcional da Unicamp chama atenção para a importância do diagnóstico diferencial e esclarece dúvidas sobre hereditariedade

O Parkinson é frequentemente associado ao envelhecimento, mas a doença também pode afetar adultos mais jovens. Quando os sintomas surgem antes dos 50 anos, a semelhança inicial com outras condições pode atrasar o diagnóstico. 

Há escassez de dados epidemiológicos no Brasil sobre o Parkinson de início precoce, mas estudos internacionais¹ indicam que casos de Parkinson antes dos 50 anos correspondem a cerca de 3% a 10% dos diagnósticos da condição em populações da Europa e dos Estados Unidos, com variações entre regiões. Embora represente uma parcela minoritária dos casos, a doença traz repercussões para a rotina, a saúde mental e o planejamento de longo prazo. 

Por surgir fora da faixa etária mais associada ao Parkinson, o quadro nem sempre é reconhecido de imediato: ele pode ser confundido com o tremor essencial, uma condição distinta, que costuma aparecer durante a ação, como ao segurar um copo, escrever ou manter os braços estendidos. 

O tremor essencial, por sua vez, frequentemente acomete os dois lados do corpo e pode envolver a cabeça e a voz. Já no Parkinson, o tremor costuma aparecer em repouso, muitas vezes começa de forma assimétrica, e pode vir acompanhado de outros sintomas, como lentidão dos movimentos, rigidez muscular e alterações da marcha. “É comum que pacientes mais jovens com tremores procurem o consultório com a hipótese de Parkinson, mas, na maioria das vezes, essa suspeita não se confirma, e o quadro corresponde a tremor essencial. O diagnóstico diferencial correto é decisivo para evitar interpretações equivocadas e permitir acompanhamento adequado desde as fases iniciais, por isso a avaliação deve ser sempre individualizada”, explica o Dr. Marcelo Valadares, neurocirurgião funcional e pesquisador da Unicamp, especialista em distúrbios do movimento.

A forma jovem do Parkinson apresenta particularidades clínicas e biológicas. Esses pacientes frequentemente têm evolução mais lenta e menor risco de declínio cognitivo nas fases iniciais, mas podem desenvolver mais cedo complicações motoras ligadas ao tratamento medicamentoso, como flutuações e movimentos involuntários.

O impacto também tende a ser diferente, uma vez que o diagnóstico chega em plena fase de trabalho, com filhos pequenos, construção de patrimônio e autonomia, mudando o planejamento de vida e podendo comprometer a saúde mental. Por isso, o cuidado deve ser individualizado e pensado para o longo prazo, combinando medicamentos, reabilitação, exercício físico e, quando indicado, terapias avançadas.

Parkinson é hereditário?

A maior parte dos casos continua sendo esporádica, de origem multifatorial, com uma combinação complexa de fatores genéticos e ambientais. “Ter um familiar com Parkinson não significa herança direta ou desfecho inevitável, inclusive para os casos em pacientes jovens”, tranquiliza o neurocirurgião. 

Apenas uma parcela minoritária dos pacientes apresenta uma ligação genética conhecida. Entre os genes mais estudados estão LRRK2, GBA, PRKN, PINK1, PARK7/DJ-1 e SNCA, com perfis distintos de associação à doença. “Existe uma diferença considerável entre ter uma variante genética associada ao risco e herdar inevitavelmente a doença. Por isso, transformar qualquer caso jovem em hereditário é uma simplificação incorreta, que pode gerar medo entre os membros da família”, explica o médico.

Em um cenário de avanço global da doença, um estudo publicado no The BMJ estima que, em 2050, mais de 25 milhões de pessoas viverão com Parkinson². Por isso, para o neurocirurgião, o ponto central é ampliar a conscientização sobre o diagnóstico preciso em todas as idades. “Se o diagnóstico é feito adequadamente, conseguimos orientar melhor o tratamento, esclarecer o papel da genética de forma responsável e reduzir a ansiedade que costuma acompanhar esses casos”, conclui. 

Referências:

¹ https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12230373/ 

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10776668

² https://www.bmj.com/content/388/bmj-2024-080952 

Sobre o Dr. Marcelo Valadares:

Dr. Marcelo Valadares é médico neurocirurgião e pesquisador da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A Neurocirurgia Funcional é a sua principal área de atuação. Seu enfoque de trabalho é voltado às cirurgias de neuromodulação cerebral em distúrbios do movimento, cirurgias menos invasivas de coluna (cirurgia endoscópica da coluna), além de procedimentos que envolvem dor na coluna, dor neurológica cerebral e outros tipos de dor. 

O especialista também é fundador e diretor do Grupo de Tratamento de Dor de Campinas, que possui uma equipe multidisciplinar formada por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e educadores físicos.

No setor público, recriou a divisão de Neurocirurgia Funcional da Unicamp, dando início à esperada cirurgia DBS (Deep Brain Stimulation – Estimulação Cerebral Profunda) naquela instituição. Estabeleceu linhas de pesquisa e abriu o Ambulatório de Atenção à Dor afiliado à Neurologia.

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