Levantamento foi feito pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), a pedido do Instituto Futuro é Infância Saudável – Infinis;
Indicador de magreza acentuada entre adolescentes caiu de 1,08% para 0,86% entre 2021 e 2025, enquanto o de obesidade teve um aumento de 2,87% para 3,12%; o sobrepeso já atinge 19,37% dos jovens
O Brasil deixou o mapa da fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) pela primeira vez desde a pandemia e os indicadores de subnutrição infantojuvenil caíram no país. No entanto, muito por conta do alto consumo de ultraprocessados, a qualidade da alimentação está pior, resultando em altos índices de obesidade e sobrepeso entre crianças e adolescentes. Esta é a conclusão do relatório “Fome, obesidade e os novos desafios da alimentação no Brasil”, feito pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP) a pedido do Instituto Futuro é Infância Saudável – Infinis, que faz parte do sistema da Fundação José Luis Setúbal.
O estudo mostra que, de acordo com dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Sistema Único de Saúde (Sisvan/SUS), entre 2021 e 2025, houve uma queda da magreza acentuada na primeira infância (0 a 5 anos), de 3,05% para 2,08%. Já entre as crianças maiores, de 5 a 10 anos, a queda foi de 2,24% para 1,52%. No caso dos adolescentes, o indicador disponível é a relação IMC/idade, em que a magreza acentuada segue o mesmo caminho: de 1,08% para 0,86%.
Os dados de obesidade e sobrepeso, no entanto, são preocupantes. Entre os adolescentes, no mesmo período, houve um aumento de 2,87% para 3,12% na obesidade, sendo que 19,37% dos jovens já estão com sobrepeso. Na primeira infância, esse índice atinge 15,71%. As crianças de 5 a 10 anos com risco de sobrepeso passaram de 17,52% para 19,17% – e o sobrepeso, de fato, aumentou de 8,17% para 8,53%.
De acordo com o relatório, a reconstrução das políticas públicas de alimentação e nutrição fez com que o país avançasse no desafio da desnutrição, mas o desafio ainda é melhorar a qualidade da alimentação e deter a crescente prevalência de sobrepeso e obesidade.
“Reverter o cenário da fome no Brasil só é possível quando unimos esforços entre diferentes setores e colocamos as pessoas no centro das políticas públicas. Programas como o Brasil sem Fome, o Bolsa Família e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) provam que o combate à desigualdade começa com acesso à renda, alimentação saudável e oportunidades desde a infância”, afirma Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis.
“Se, por um lado, o Brasil vem sendo bem-sucedido no combate à insegurança alimentar, por outro, vemos uma exposição preocupante da população brasileira aos alimentos ultraprocessados – o que é crítico especialmente na infância e na adolescência. Nesse sentido, é urgente criar e fortalecer políticas públicas que ampliem o acesso aos alimentos in natura e minimamente processados e que desencorajem o consumo de ultraprocessados”, afirma Murilo Bomfim, pesquisador-colaborador do Nupens.
Consumo de ultraprocessados
A avaliação dos pesquisadores é de que, apesar da melhora na segurança alimentar em relação à quantidade de comida ofertada a crianças e adolescentes, a qualidade desses alimentos piorou. Dados obtidos pelo Sisvan apontam que na fase da introdução alimentar, que envolve crianças entre 6 meses e 2 anos, o consumo de ultraprocessados é significativo: passou de 30% para 35% no período entre 2021 e 2025, com pico de 44% em 2022.
Entre crianças e adolescentes de 2 a 19 anos, no mesmo período, os ultraprocessados estiveram presentes em altíssimos percentuais, variando de 77% a 89%. Em todos os anos e grupos analisados, o consumo de ultraprocessados foi superior ao consumo de verduras e legumes (que variou de 64% a 73%). A tendência é confirmada por dados internacionais: o relatório global do Unicef de 2025 indica que a obesidade infantil já superou a desnutrição entre crianças e adolescentes em idade escolar no mundo.
De acordo com o estudo, esses números são resultado de uma mudança nos hábitos alimentares brasileiros, especialmente de alimentos ultraprocessados. Entre as recomendações, além de coibir a exposição de crianças e adolescentes a esse tipo de alimentos, o levantamento avalia positivamente políticas públicas como as leis municipais sancionadas em 2023, em Niterói e no Rio de Janeiro, que proíbem a venda e a distribuição de alimentos ultraprocessados em ambiente escolar e a Política Nacional de Abastecimento Alimentar, implementada em 2023.
Sobre o Infinis
O Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável foi criado em 2025 com o propósito de intensificar e qualificar a atuação em defesa da saúde pública para crianças e adolescentes, além de contribuir para o fortalecimento do terceiro setor e o desenvolvimento da filantropia no Brasil. A organização integra o sistema da Fundação José Luiz Setúbal, ao lado do Sabará Hospital Infantil e do Instituto Pensi.
Os esforços do Infinis estão concentrados em quatro eixos: 1. segurança alimentar e nutricional; 2. saúde mental; 3. prevenção às violências, alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU (Organização das Nações Unidas); e 4. fortalecimento da sociedade civil.
Com base em dados e evidências científicas, o Infinis busca o aprimoramento e a efetivação de políticas públicas, a transformação de comportamentos por meio de projetos e iniciativas com parceiros, e o desenvolvimento de soluções locais que promovam a saúde na infância e adolescência. Para cumprir sua missão, apoia o desenvolvimento de pesquisas científicas e o trabalho de organizações sociais da área da saúde, além de atuar na mobilização de discussões e políticas públicas que fortaleçam o terceiro setor.















