Carência nutricional, complicações hepáticas e risco de associação com outras substâncias estão entre os possíveis efeitos
Festas, fogueiras, comidas típicas e muita animação tomam conta do período junino. Em meio às comemorações, cresce também o consumo de bebidas selecionadas. Embora o hábito seja comum, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que mesmo pequenas quantidades podem estar associadas a riscos à saúde. Entre os possíveis efeitos estão doenças hepáticas, cardiovasculares e transtornos mentais, especialmente em pessoas com predisposição genética ou outras condições clínicas.
“A principal razão é que não conhecemos quem é geneticamente predisposto ou vulnerável ao desenvolvimento de dependência química, cirrose hepática e outras doenças crônicas desencadeadas ou agravadas pelo consumo de bebidas alcoólicas”, explica Ananda Cedraz, médica nutróloga e professora do curso de Medicina da Universidade Salvador (UNIFACS).
De acordo com a OMS, o uso regular de álcool está associado a mais de 200 enfermidades, incluindo sete tipos de câncer, doenças cardiovasculares e lesões provocadas por acidentes, automutilação e violência. Os impactos no cérebro também são planejados por estudos: uma pesquisa publicada na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia, indica que o consumo excessivo — definido como oito doses ou mais por semana — pode comprometer memória e raciocínio, sintomas associados à demência. Cada dose corresponde a cerca de 14g de álcool (cerca de uma lata de 350 ml de cerveja, uma taça de 150 ml de vinho ou 45 ml de destilado).
Efeitos do consumo exagerado ou prolongado
Mesmo em pequenas quantidades, a ingestão contínua pode gerar alterações no organismo. Segundo uma médica nutróloga, o álcool tende a interferir nos mecanismos de proteção imunológica e cerebral, além de favorecer o desenvolvimento da dependência. “Durante a metabolização do etanol, o corpo libera uma substância tóxica que provoca o chamado estresse oxidativo – um desequilíbrio entre radicais livres e a capacidade do organismo de neutralizá-los com antioxidantes. Isso pode contribuir para inflamações e afetar barreiras protetoras importantes, como a intestinal e a hematoencefálica”, explica.
Ela destaca que mesmo doses moderadas trazem riscos a longo prazo, como toxicidade ao sistema nervoso e deficiências nutricionais graves. “O consumo regular ainda causa uma toxicidade hepática que, com o passar do tempo, pode evoluir para falência total ou câncer de fígado. Além disso, o álcool está atrelado ao aumento do risco de abuso de outras substâncias danosas, a exemplo do tabaco”, diz.
Entre as consequências estão a toxicidade ao sistema nervoso e deficiências nutricionais. O consumo frequente também pode afetar o fígado, com risco de evolução para insuficiência hepática ou câncer. Além disso, há uma associação entre o uso contínuo de álcool e o aumento da propensão ao uso de outras substâncias, como o tabaco.
Mitos e cuidados
Nas décadas anteriores, pesquisas sugeriram que bebidas alcoólicas, como o vinho tinto, poderiam ter efeitos benéficos sobre a saúde cardiovascular. No entanto, segundo Ananda Cedraz, as recomendações com base nesse tipo de evidência devem ser avaliadas com cautela, pois existem estratégias comprovadas e seguras para proteger o sistema circulatório.
“É importante lembrar que, apesar de socialmente aceito, o álcool é uma substância com potencial tóxico. Por isso, entender os efeitos que ele pode causar é muito importante”, conclui a professora da UNIFACS, cujo curso de Medicina integra a Inspirali.

















