Dirigido por Camila Miranda, filme revisita a figura enigmática e revolucionária de João Gilberto, a partir de depoimentos de artistas que conviveram com o músico e testemunharam a permanência de sua obra
Há artistas cuja existência vai além da vida e que, mesmo silenciados, continuam produzindo ruídos que reorganizam o mundo. João Gilberto (1931–2019) é um desses nomes raros que atravessam gerações como um sussurro perene, o tipo de artista que parece sempre prestes a entrar em cena, afinando o violão no escuro, como quem decifra o mundo pelas cordas. É dessa presença ainda pulsante que nasce NOITES DE JOÃO, documentário inédito dirigido por Camila Miranda, que estreia no SescTV em 10 de dezembro, às 23h. O filme também fica disponível gratuitamente para todo o Brasil na plataforma e app Sesc Digital.
Com 47 minutos, a obra recupera o impacto de uma figura considerada unanimemente como o pai da Bossa Nova, inventor de um modo de cantar e tocar que alterou, de forma irreversível, as coordenadas da música brasileira e mundial. Na tela, artistas de diferentes épocas — Gilberto Gil, Tom Zé, Alaíde Costa, Jards Macalé, João Bosco, Joyce Moreno, Dori Caymmi, Bebel Gilberto, entre outros — evocam memórias, reencontram afetos e se deixam atravessar por um músico que, desde 1958, habita um território que muitos descrevem como milagroso. “João tinha uma voz que manifestava uma emissão mágica, sedutora. Por isso me refiro à ideia de que o conjunto da passagem e da presença dele na música do Brasil e do mundo foi uma espécie de milagre”, comenta Gilberto Gil, tentando definir o indefinível.
Produzido pelo SescTV, o documentário se ancora na celebração dos 25 anos da histórica apresentação de João Gilberto no Sesc Vila Mariana, show que deu origem ao lançamento recente do álbum João Gilberto (ao vivo no Sesc 1998), inaugurando a coleção Relicário, do Selo Sesc. Bebel, ao revisitar esse registro do pai, lembra o impacto de redescobrir aquele momento: “Tudo começou quando eu estava cuidando das coisas do meu pai, em 2018, e aí, quando eu ouvi eu descobri que, além de ser uma gravação incrível, ele estava num momento incrível: apaixonadíssimo — pelo jeito — com um jeito de cantar que só quem está amando canta.” O filme acompanha artistas reunidos para rememorar aquele instante definitivo: a última aparição de João no Sesc, registrada com a precisão pelos microfones e câmeras.
Ao longo do documentário, emergem memórias que atravessam a biografia do artista, como sua chegada ao Rio de Janeiro no fim dos anos 1940, as primeiras gravações, a dormida de meses no quarto de Roberto Menescal enquanto reinventava o tempo de compasso no violão, a chegada apoteótica da canção Chega de Saudade (1959). Relembram também a repercussão internacional de João Gilberto en México (1970), o histórico Grammy Award de Álbum do Ano de Música Latina por João Voz e Violão (2001), produzido por Caetano Veloso, e o impacto de interpretações que redesenharam canções como quem redesenha o país. “Ele tinha o gosto pela transmutação que podia ser feita, de canções que eram uma coisa e viravam outra. Baladas que viravam samba, sambas que viravam toada, toadas que viravam baiões”, completa Gil. “Acho que foi essa pluralidade de estilos e de olhares que impressionou.”
Nas falas reunidas na produção, João aparece como paradoxo sólido, ao mesmo tempo discreto e monumental, arredio e generoso, doce e severo, zen e intempestivo, um artista que exigia de si o que não poderia pedir a mais ninguém. Alaíde Costa recorda a primeira vez em que ouviu sua batida; Tom Zé fala de um João que “ensinou o Brasil a respirar”; Macalé celebra o amigo de ternura explosiva. E Bebel, mais uma vez, tenta explicar o indizível ao comentar sua relação obsessiva com a própria reinvenção: “Cada vez, ele tocava de uma forma as músicas, procurar não repetir os mesmos acordes, fazer inversões, trocar o baixo. Tudo isso é muito característico do João Gilberto, daquela época, em que ele estava buscando sempre se superar ou até inventar a música novamente.”
Ver João no palco era atravessar um enigma. Para alguns, o impacto estava no gesto mínimo, com sua mão direita ondulando como água. Para outros, era a rigidez generosa do artista que, ao corrigir um retorno, parecia reger o próprio ar do ambiente. Todos, porém, compartilham a sensação de terem testemunhado algo que ultrapassa o auditório, uma espécie de acontecimento íntimo e coletivo, que cada espectador leva consigo.
O filme também ecoa o efeito emocional de seu último show no Sesc Vila Mariana. Muitos dos entrevistados estavam presentes naquela noite de 1998 e relatam, com emoção ainda fresca, a impressão de ver o artista prestes a se dissolver na própria música. Era João reduzido ao essencial: a voz que roçava a melodia, o violão que esculpia o silêncio, o canto que parecia surgir do intervalo entre uma respiração e outra, quase sussurrando.
Como a própria Bossa Nova, NOITES DE JOÃO é menos sobre acontecimentos e mais sobre atmosferas. O documentário constrói um retrato afetivo e misterioso, em que depoimentos, imagens de arquivo e as vozes de quem o conheceu costuram um filme que não pretende explicar João Gilberto — porque, talvez, explicar João seja um contrassenso — mas reacender seu lume, permitir que o espectador sinta, mais uma vez, a vibração do homem que reinventou o violão brasileiro.
A obra reafirma João não apenas como figura histórica, mas como presença ativa. Um artista que, ao morrer, não partiu; apenas mudou de frequência. Há uma cena em que um dos músicos diz que João “não tocava batida, tocava tempo”. Talvez seja esse o motivo pelo qual sua música segue se movendo como se nunca tivesse acabado.
SERVIÇO
NOITES DE JOÃO
Documentário
Direção: Camila Miranda
Duração: 47 minutos
Classificação indicativa: Livre
Estreia: 10 de dezembro, quarta-feira, às 23h
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