Thainá Pitta critica a dissociação entre campanhas diversas e práticas discriminatórias no cotidiano das marcas, e reforça que inclusão não é estética, é estrutura.
Em 2025, o Brasil avançou em direção a uma publicidade mais diversa, pelo menos à primeira vista. Os dados mostram que a presença de pessoas negras em campanhas cresceu, a linguagem visual das marcas se sofisticou, e o discurso de inclusão entrou no vocabulário das grandes agências . Por outro lado, o que se repete nos bastidores é o silêncio diante das experiências de racismo vividas nos pontos de contato com o consumidor.
Uma pesquisa L’Oréal Luxo , lançada em abril de 2025, em parceria com o movimento Mover e a rede Black Sisters in Law , revelou que 91% dos consumidores negros da classe AB já vivenciaram episódios de discriminação em lojas de alto padrão , a exemplo de abordagens invasivas, tratamento indiferente e ausência de produtos direcionados para peles negras nos estoques.
Diante desse cenário contrastante entre discurso e prática, a executiva de atendimento e Relações Públicas, Thainá Pitta , explica que as marcas precisam entender que inclusão não é performance . Quando um consumidor negro entra em uma loja, farmácia, salão de beleza ou restaurante e se sente vigiado, invisibilizado ou maltratado, não há campanha que repare a agressão causada. “O atendimento é uma encruzilhada onde a marca confirma ou desmente tudo o que ela vendeu na publicidade e ações promocionais. E se a prática não sustenta a promessa, o público percebe, recua e rompe a relação” .
Atenta aos diversos cenários de mercado, Thainá explica que é preciso parar de tratar a diversidade como uma estratégia de imagem e começar a tratá-la como estrutura de cuidado . Não se trata apenas de colocar pessoas negras nas campanhas, mas de garantir que essas pessoas sejam incluídas, respeitadas, ouvidas e valorizadas quando se aproximam da marca na vida real. A executiva destaca que a experiência de consumo ainda é um campo de tensão para pessoas negras , e que o que chama de humanização só faz sentido se for capaz de reconhecer a história, o corpo e a subjetividade de quem está do outro lado.
“Em um mercado no qual 37% dos consumidores da classe AB são negros, e mais de 60% na classe C, a negligência não é apenas injusta. É estrategicamente burra. Estudos da Ipsos e da Columbia apontam que campanhas com representatividade racial aumentam o engajamento, mas mostram também que esse efeito se dissolve quando não há coerência entre discurso e entrega. Nós aprendemos a importância quando estamos sendo representados e quando estamos sendo instrumentalizados, e isso muda tudo” , pontua Pitta.
Inserida como mulher negra e baiana dentro de ativações culturais importantes, Thainá Pitta tem atuado junto a grandes organizações e eventos como o Energy Summit 2025, Rio2C, Pacto Global da ONU, The Town, Afropunk, e o Prêmio da Música Brasileira , permitindo-lhe ver de perto ações de sucesso e inclusão.
Reforçando, e provocando a reflexão de que diversidade sem transformação interna é publicidade com prazo de validade, o especialista explica que o consumidor negro está cansado de ser usado como símbolo, e tratado como problema . Para ela, é hora de mudar a pergunta e, ao invés de pensar como a marca quer ser vista, é preciso perguntar como ela quer fazer as pessoas se sentirem.
“Em um tempo em que a comunicação se apresenta como solução para tudo, poucas marcas entendem que há conflitos que não se resolvem com estética. É preciso coragem política, mudanças reais e responsabilidade coletiva” , conclui.

















