Comentários sobre a arte de Noboru
Marcio Salgado*
Se a poesia – assim como os pássaros – pousa onde quer, é verdade cristalina que andou pelas ruas da cidade, pelas luas do universo, viajou mundo afora, e desceu para inspirar os sutis sentidos de Noboru Jo. Poeta e designer gráfico, ele lançou um livro que reúne em uma só empreitada poesia, criação visual, além de uma breve história das fontes gráficas. O título do seu livro é “Mucuna Pruriens: poesia visual” (2024), e foi editado em parceria com a estilista e designer Rosanna Naccarato, companheira do autor.
A história das fontes tipográficas vem de longe. Johannes Gutenberg, no século XV, criou a prensa dos tipos móveis, proporcionando a produção de livros, o que significou a democratização do conhecimento. Até a era moderna houve algumas revoluções para aportar na fase da composição eletrônica. Para o autor, a edição deste livro é uma forma de divulgar os tipógrafos, desenhistas e designers de várias épocas.
O livro homenageia os poetas concretos, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, além de Ferreira Gullar, Mario Chamie, Oswald de Andrade, Paulo Leminski; e também artistas, escultores e pintores que se inspiraram no movimento Concretista e no Neoconcretismo, como Caetano Veloso, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Amilcar de Castro, Ligia Pape, dentre outros.
O labor deste livro passa por algumas fases, como a descrição da fonte e a aplicação da mesma ao poema que vem na página seguinte. Nas páginas 32/33, ele trabalha com a fonte Helvética. Conforme o autor, a Helvética é o tipo de fonte que melhor define o designer suíço. A fonte foi criada por Max Miedinger para a HaasType Foundry, em 1956. Tantos anos depois, a Helvética “continua sendo o tipo de letra mais querido de designers de todo o mundo”, ele observa. Eis o poema que acompanha a sua descrição (aqui sem o arranjo espacial do artista): “sol das terras sujas / sol das ferraduras / sol das tempuras / sol das tuas curas / sol das boas fúrias / sol das vagas luas / sol das ditaduras”.
Caetano Veloso ganhou um belo poema visual inspirado somente nas letras do seu próprio nome. Conforme o autor, é grande a sua admiração pelo artista baiano, que ele associa ao cantor e músico de jazz norte-americano Chet Baker. “Vozes que acho parecidas e a elegância também. Nunca consigo escutar um sem ouvir o outro. Acho os dois bem bossa nova, ou melhor: são fodas!”
O autor, que também assina os seus trabalhos como Jo Oliveira, é conhecido no mundo fonográfico por suas capas de discos para diversos artistas da música popular brasileira e internacional em vários estilos musicais: do samba ao rock, passando pelo clássico, o jaz e a música instrumental. Com vários logotipos para selos musicais, entre eles Plug (RCA), Carmo (de Egberto Gismonti), Jangada (Emai).
Este livro traz uma fonte de sua autoria, feita à mão, para o haikai: “No Fundo / No Fundo / Ser Mais Profundo / Que o Mar do Japão.” O haikai é outra das suas especialidades poéticas, tendo publicado, neste gênero e subgêneros, os livros “Ele foi mordido por uma cobra” (2025), além de “uma cerveja no jardim” (2022/2025), com desenhos de Rosanna Naccarato.
As páginas dedicadas ao modernista da Semana de 22, Oswald de Andrade, trazem um poema que retrata, com fina ironia, pequenas observações das grandes metrópoles: “O pão de açúcar / A praia de Ipanema / O bonde de Santa Teresa / A cidade e sua beleza / Me faz parir o poema / O viaduto Santa Efigênia / A cada santo do dia / Na grande São Paulo / Concreta e fria / Oh, dai-nos Senhor / Aquela imensa alegria / Menos melão / Mais melancia!”
Não é sem motivo que o autor homenageia o modernista, além do talento, ele próprio, tem verve e humor, como atestam os seus versos: “ando comendo & fumando / na mão da mulher que amo / do bom e do melhor // e quando volto para casa / amassado e bem cansado / deito na cama mesa & banho.” Estes são versos de outra coletânea de poemas, que veio a lume em 2024, sob o título “Volume de tudo, mais”.
Outros poetas, criadores das diversas artes, esportistas, amigos e amigas receberam do autor homenagens em forma de poesia. Para a ex-jogadora de vôlei Isabel Salgado, que morreu de covid-19, em 2022, ele dedicou o belo poema “set final”, cujos versos dizem: “voa como um cometa de ponta-cabeça / faz o rosto sentir este calor / a favela e o asfalto no horizonte despontam / a tristeza não é só da vida: o cão o gato a morte, não!”
É deste livro o tributo que o poeta faz ao cineasta Glauber Rocha, compartilhando com ele a sua forma habitual de escrita, no poema “terceyro mundo”: “nenhum vynkulo kom Eros / nem elos kom Thanatos / payxão pelo eterno!”
*Marcio Salgado
Jornalista e escritor,
autor do romance Livro dos Cegos (Caravana, 2024).















