Uma das manifestações religiosas e culturais mais emblemáticas de Salvador, a Lavagem do Bonfim carrega uma história marcada por fé, resistência e sincretismo. Apesar de sua importância para a identidade baiana, não há um consenso histórico sobre o momento exato em que a tradição teve início. O que se sabe é que a lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim começou a se consolidar ao longo do século XIX.
Entre as versões mais conhecidas sobre a origem do ritual está a de que a prática teria sido iniciada por um português que sobreviveu à Guerra do Paraguai e, em agradecimento pela vida, passou a realizar a limpeza da igreja como forma de devoção. Outra narrativa aponta que a lavagem teria sido criada por um devoto de Oxalá, orixá associado à criação e à paz no candomblé, reforçando desde cedo o caráter sincrético da celebração.
Há ainda uma terceira hipótese, ligada à presença da dança de São Gonçalo, manifestação católica popular que passou a ocorrer na Igreja do Bonfim. Antes da realização da dança, as organizadoras costumavam lavar o espaço e espalhar areia e folhas de laranjeira pelo chão — um costume semelhante às práticas rituais dedicadas aos orixás nas religiões de matriz africana.
Ao longo do tempo, a Lavagem do Bonfim enfrentou resistência das autoridades da Igreja Católica em Salvador, que tentaram coibir o ritual por considerá-lo inadequado aos padrões litúrgicos da época. Ainda assim, a prática sobreviveu às proibições, ganhou força popular e se transformou em um dos símbolos mais reconhecidos da devoção ao Senhor do Bonfim e da convivência entre o catolicismo e o candomblé na capital baiana.
Quando acontece a Lavagem do Bonfim
A Lavagem da Escadaria do Bonfim é realizada tradicionalmente na quinta-feira que antecede o segundo domingo após o Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro. A partir desse dia, as comemorações em homenagem ao Senhor do Bonfim se estendem até o domingo, reunindo missas, cortejos, manifestações culturais e milhares de fiéis.
Reconhecida por sua relevância histórica, religiosa e cultural, a Festa do Bonfim foi tombada em 2013 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. A própria Igreja do Senhor do Bonfim já havia recebido esse reconhecimento em 1938, consolidando seu papel central na memória e na identidade cultural do país.

















