Em “A Inventariante”, a burocracia do inventário se transforma em ponto de partida para uma investigação sobre as contradições que atravessam as relações familiares.
A morte de um pai costuma mobilizar rituais previsíveis: velório, despedidas, documentos e a abertura de um inventário. Mas o que acontece quando, além dos bens, é preciso organizar também as memórias fragmentadas de uma relação incompleta? É a partir dessa pergunta que a escritora baiana Analu Leite constrói o romance “A Inventariante”, que será lançado na Bienal do Livro da Bahia, dias 17 e 19 de abril, no estande “Escreva Garota”.
Na narrativa, a protagonista Marcela é convocada a assumir o inventário de Álvaro, um pai carismático, contraditório e emocionalmente ausente. Ao lidar com documentos, dívidas e propriedades, ela se vê obrigada a revisitar também a história fragmentada dessa relação. Entre lembranças incômodas, expectativas frustradas e descobertas inesperadas, o inventário acaba revelando muito mais do que bens materiais. Ele expõe os rastros emocionais deixados por um homem cuja presença continua atravessando a vida da filha mesmo após a morte. Segundo a autora, o interesse pela história surgiu justamente pela dimensão emocional que o processo revela. “Percebi que investigar o outro será sempre, em última instância, investigar a si”, afirma.
Outro eixo central da narrativa é o questionamento das expectativas sociais em torno do luto. Marcela não corresponde ao modelo tradicional de filha devastada pela morte do pai. Sua reação é marcada por ambivalência e distanciamento, o que expõe as tensões entre o que se espera de alguém diante da perda e o que de fato se sente. Para Analu Leite, essa contradição revela o quanto os papéis familiares também são construções sociais. “A pergunta que me ocorreu foi: é possível sofrer pela morte de um pai ausente? Se ele não foi o pai que se esperava, a filha estaria igualmente liberada de seu papel de filha?”, questiona.
Como nossos pais
Entre as muitas camadas que emergem ao longo da leitura de “A Inventariante”, uma delas se impõe com força particular, que é a percepção de que a herança deixada por um pai não se limita ao que pode ser dividido em documentos ou registrado em cartório, como a possibilidade incômoda de reconhecer no próprio comportamento traços do homem que ela sempre julgou à distância. “Para muito além do patrimônio, a repetição de padrões, comportamentos, maneirismos, talentos e vícios sempre me impressiona. Vejo-me repetindo meus pais até mesmo em atitudes que não gostaria de reproduzir”, diz. A autora observa que essa continuidade muitas vezes aparece justamente nos aspectos que gostaríamos de evitar e, ao perceber em si mesmas características que rejeitavam nos pais, muitas pessoas são confrontadas com a complexidade das relações familiares e com a inevitável influência daqueles que vieram antes. Para Analu Leite, esse é um dos temas que mais a intrigam nas relações humanas. “O que herdamos de nossos pais ou daqueles que nos antecedem é um tema que me fascina”, afirma.
Uma Salvador contemporânea como cenário
Ambientado em Salvador, o romance também incorpora a cidade como parte fundamental da construção narrativa. Ruas, bairros e paisagens dialogam com os personagens e ajudam a compor a atmosfera emocional da história. Ao situar o enredo na capital baiana, a autora também propõe um retrato urbano de uma Salvador contemporânea. “A trama foi deliberadamente inspirada em uma história que se passou em Salvador e no sobe e desce desta cidade feita de lindas paisagens e de inegáveis desigualdades sociais”, explica. “Arrisco dizer que, para este romance, Salvador é mais do que cenário. É território possível para uma história tão nossa acontecer.”
Sobre a autora
Analu Leite é formada em Direito, na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), mestre em Processo Constitucional pela Universidad Nacional Lomas de Zamora (Argentina) e servidora pública do Tribunal de Justiça da Bahia. É autora dos romances “Com amor, mamãe” (Ed. Mente Aberta) e “Verdades de papel” (Ed. Urutau). Em 2025, lançou seu primeiro infantil, a “Menina e o sabiá”, pelo selo Tádesol Tádelua (Ed. Urutau).
SERVIÇOS:
Lançamento de livro:“A Inventariante”, de Analu Leite
Dias 17 (sexta-feira, das 17 às 19h) e 19/04 (domingo, das 10h às 20h)
Na Bienal do Livro da Bahia (Centro de Convenções) – Estande “Escreva Garota”
FICHA TÉCNICA:
“A Inventariante” | Autora: Analu leite
Editora: Urutau
Ano: 2026
Páginas: 188
Preço: R$ 65,00
Vendas: Site da Editora Urutau

















