Se há um lugar em Salvador onde o tempo desacelera naturalmente, esse lugar é Itapuã. No aniversário da cidade, celebrado no próximo domingo (29), é impossível não lembrar da clássica “tarde em Itapuã”, eternizada por Vinícius de Moraes — e perceber que esse clima ainda segue vivo no dia a dia de quem vive e circula pelo bairro.
Mais do que um cenário, Itapuã é uma experiência sensorial. É chegar sem pressa, sentir a brisa do mar, escolher um pedaço de areia e simplesmente deixar o dia fluir. Para o sommelier Jorge de Jesus dos Santos, essa conexão vem desde a infância, quando passava férias no bairro e se encantava com o movimento do Parque Metropolitano do Abaeté, então um dos pontos mais vibrantes da região.
Anos depois, já morando em Salvador, foi em Itapuã que ele construiu parte da sua trajetória profissional. “Ser itapuãzeiro é motivo de orgulho”, afirma. Para Jorge, o bairro reúne o que há de mais autêntico: boa gastronomia, praias marcantes, cultura popular forte — com pescadores, capoeira e samba — e, principalmente, um povo acolhedor. “Aqui as pessoas têm um sorriso fácil e uma receptividade única”, resume.
Esse espírito se revela nos pequenos prazeres do cotidiano: caminhar pelas dunas do Abaeté, assistir ao pôr do sol — considerado um dos mais bonitos da cidade —, fazer um piquenique à beira da lagoa ou sentar em um bar de praia para petiscar e brindar. “Viver em Itapuã é uma dádiva”, diz.
Para ele, uma tarde perfeita no bairro segue quase um roteiro afetivo. Começa com uma boa moqueca no Ki-Mukeka, passa pela tradicional casquinha de siri da Cabana da Sônia, segue para o pôr do sol no Alerta Praia Bar e termina no clima descontraído do Armazém Paulistano, já em Jaguaribe. Um percurso simples, mas que traduz bem o estilo de vida local: boa comida, mar à vista e tempo sem pressa.
Morador do bairro, Michael Santana resume Itapuã com espontaneidade: “Itapuã é Itapuã!”. Para ele, o lugar tem de tudo — do pagode ao samba, do acarajé à praia. A rotina é feita de encontros, seja no Acarajé da Cira, nas rodas de samba ou nas tradicionais feijoadas de domingo. “Aqui, o Abaeté é minha varanda e a praia é meu quintal”, brinca. E há um momento que sintetiza tudo: a maré baixa, quando o mar se transforma em uma grande piscina natural.
Esse encantamento também atravessa gerações. O empresário Paolo Alfonsi, do Mistura, chegou a Itapuã há quase 40 anos e nunca mais saiu. “Aqui é casa e trabalho”, diz. Ele relembra um tempo em que o bairro era ainda mais tranquilo, mas garante: o charme permanece. A relação com os pescadores e o mar segue sendo a essência da gastronomia local, com pratos que refletem essa identidade.
Explorar Itapuã também é se perder — no melhor sentido — por suas ruas e paisagens. Do Farol às vias que levam ao mar, como a Rua da Poesia, surgem cenários únicos. Lugares como a Praia de Placaford e a Pedra da Sereia reforçam esse clima de descoberta, enquanto a feira local revela a vida pulsante do bairro, com seus sabores, cores e histórias.
Na orla, opções mais estruturadas também fazem parte do roteiro, como o Deville Prime Salvador, que combina conforto e natureza, e o Casa di Vina, que mantém viva a atmosfera poética ligada a Vinícius. Restaurantes e beach clubs completam a experiência de quem quer estender o dia até a noite.
No fim, Itapuã continua sendo mais do que um bairro: é um estado de espírito. Um lugar onde Salvador desacelera, a cultura se manifesta nas ruas e o mar dita o ritmo. Celebrar Itapuã no aniversário da cidade é reconhecer que, mesmo em uma capital vibrante, ainda existem espaços onde viver é, essencialmente, saber aproveitar o tempo.
















