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Um a cada vinte brasileiros arrisca utilizar inteligência artificial como “terapeuta de bolso”

  • Atitude, Comportamento, Destaque 1, Sub-Editoria Atitude
  • 2025-09-11
  • Sem comentários
  • 3 minutos de leitura

Diferente da inteligência artificial, que busca “agradar” o usuário, o psicólogo traça um plano terapêutico que de fato irá tratar o paciente. (Crédito: Shutterstock)

Especialistas incentivam a busca por um profissional qualificado e sinalizam quais são os riscos e objeções que impedem pacientes de procurar ajuda

Cerca de 12 milhões de brasileiros (ou 1 a cada 20 pessoas) usam a inteligência artificial (IA) para fazer terapia. O dado é de uma pesquisa da Talk Inc, uma empresa de pesquisas de comportamento. Preocupante, visto que a interação com a máquina nunca leva ao tratamento. E em alguns casos, pode até levar à morte, como a do adolescente de 16 anos que morreu nos Estados Unidos após meses conversando sobre suicídio com o Chat GPT.

Ao invés de trazer informações que poderiam levar o jovem a um tratamento, a inteligência artificial validou os pensamentos suicidas e ainda forneceu informações detalhadas sobre métodos letais. E é esse o alerta que a psicóloga Aline de Menezes, do Eco Medical Center, faz: “A tendência da IA é sempre agradar o usuário conforme a vontade que ele manifesta no chat. Ela não é como o psicólogo, que traça o perfil do paciente e busca um plano terapêutico”.

E a profissional relata que tem recebido cada vez mais pacientes que relatam ter tentado usar a inteligência artificial como terapia. Mas com escuta ativa e acolhimento, ela mostra ao paciente o quanto a relação humana e os exemplos práticos de vida vão muito além do que a IA pode oferecer.

Terapia de bolso

Não há como negar. Diferente da terapia com um profissional, que geralmente ocorre apenas uma vez por semana e com hora marcada, a IA é um terapeuta de bolso disponível 24 horas por dia, com respostas rápidas, principalmente nos momentos de crise. E isso é tentador, até pelo fato de não “trazer custo” financeiro ao paciente. Mas traz riscos maiores, como a própria vida.

“A IA pode até oferecer uma frase de apoio. Mas não substitui a escuta clínica, a compreensão da história de vida do paciente, nem a responsabilidade ética do psicólogo. A terapia não é apenas acolhimento. Ela promove a reflexão, a confrontação cuidadosa, a elaboração de estratégia exigida para lidar com o desconforto. Sem isso, a gente não consegue promover mudanças reais, algo que faça sentido na vida da pessoa”, diz a psicóloga.

Ela ainda alerta sobre o sigilo, pois o que está em consultório (seja terapia presencial ou online) é só entre paciente e profissional. O que está na inteligência artificial é público, vai para bancos de dados na internet. Além disso, como no caso do adolescente nos Estados Unidos, a IA não avalia os riscos de suicídio, automutilação e de transtornos mais graves.

A IA não consegue personalizar intervenções conforme a história de vida, os padrões culturais, as interações familiares. A psicoterapia profissional envolve o processo de vínculo, técnicas baseadas em estudos científicos e evidências. O psicólogo nunca colocará um paciente em risco.

Objeções que “travam” os pacientes de buscar ajuda

Neste mês de setembro, a campanha Setembro Amarelo® 2025 traz como tema: “Se precisar, peça ajuda!”. A mensagem é simples, mas carrega um grande desafio: superar o estigma e as barreiras internas que impedem alguém de buscar apoio com um psicólogo.

“Muitas vezes a pessoa até reconhece o sofrimento, mas se sente travada para pedir ajuda por vergonha, medo ou por achar que sua dor não é tão importante”, explica a profissional, também mostrando o porquê muita gente acaba recorrendo à inteligência artificial. A psicóloga ainda mostra quais são as objeções mais comuns ditas pelos pacientes e como derrubá-las:

Paciente: “Não quero incomodar ninguém. É fraqueza pedir ajuda.”

Médico ou amigo/familiar: Pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza. Reconhecer o limite é o primeiro passo para se reerguer.

“Outras pessoas têm problemas piores que os meus.”

O sofrimento não precisa ser comparado. Cada dor é legítima e merece atenção.

“Já tentei antes e não funcionou.”

Cada processo é único. O fato de uma tentativa anterior não ter dado resultado não significa que não vá funcionar agora.

“Tenho vergonha do que vão pensar de mim.”

O espaço terapêutico é seguro e sem críticas. O tratamento existe justamente para acolher sem julgamentos.

“Não tenho tempo/dinheiro para isso.”

Investir em saúde mental é tão essencial quanto cuidar do corpo. Negligenciar pode levar a agravamentos sérios, inclusive médicos.

“Eu deveria dar conta sozinho.”

Ninguém precisa carregar o peso da vida sem suporte. A rede de apoio (profissionais, amigos e família) é fundamental.

A importância de falar sobre suicídio

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), falar sobre suicídio com responsabilidade não incentiva, mas previne. Reconhecer sinais de alerta, manter uma escuta ativa e encaminhar a pessoa para apoio profissional podem salvar vidas.

“Quando uma pessoa pensa em tirar a própria vida, sua visão fica restrita. Ela não consegue enxergar alternativas. É por isso que a empatia e o encaminhamento para atendimento profissional são tão importantes”, reforça a campanha oficial.

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