Menstruação: A Sangria Inútil, publicado em 1996, questionou paradigmas da medicina e provocou novas reflexões sobre saúde feminina
Em 1996, quando publicou Menstruação: A Sangria Inútil, o médico e pesquisador baiano Elsimar Coutinho colocou em pauta um tema que, à época, parecia inconcebível: repensar a menstruação não apenas como um processo biológico natural, mas também sob a perspectiva da qualidade de vida, das doenças ginecológicas e da autonomia da mulher sobre o próprio corpo. Trinta anos depois, a obra permanece como referência em um debate que continua mobilizando pesquisadores e profissionais de saúde, agora sustentado por um volume muito maior de evidências científicas, protocolos clínicos e avanços no conhecimento sobre a saúde feminina.
Embora suas ideias não tenham alcançado consenso absoluto, a publicação marcou um momento importante da medicina ao desafiar paradigmas e estimular novas investigações sobre temas que, até então, recebiam pouca atenção. Endometriose, adenomiose, sangramento uterino intenso, menopausa e os impactos da saúde hormonal sobre a qualidade de vida eram alguns deles.
Médico ginecologista, especialista em reposição hormonal e contemporâneo de Elsimar Coutinho, Dr. Luiz Carlos Calmon destaca que as teses defendidas pelo pesquisador ganharam reconhecimento justamente porque resistiram ao tempo e passaram a integrar a prática clínica. “Embora muitas das ideias apresentadas pelo Dr. Elsimar tenha enfrentado resistência quando surgiram, hoje diversos conceitos discutidos por ele fazem parte da medicina contemporânea. Seu maior legado foi estimular uma forma de pensar a saúde da mulher baseada na observação científica e na individualidade de cada paciente”, afirma.
Contribuições para o debate internacional sobre saúde da mulher
Natural de Pojuca (BA), com formação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e especializações na Universidade de Sorbonne, em Paris, e no Instituto Rockefeller, em Nova York, Elsimar Coutinho construiu uma trajetória internacional dedicada à pesquisa em endocrinologia, reprodução humana e contracepção. Foi responsável pelo desenvolvimento do primeiro anticoncepcional injetável de uso prolongado e participou do aperfeiçoamento de diferentes métodos contraceptivos, além de fundar o Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH), referência nacional em assistência, ensino e pesquisa.
Seu percurso também foi marcado pela defesa de uma medicina atenta às particularidades de cada paciente. Nas últimas décadas, essa perspectiva ganhou espaço à medida que o avanço das pesquisas ampliou o entendimento sobre o papel dos hormônios em diferentes fases da vida e os temas antes pouco explorados passaram a integrar a produção científica, as políticas públicas e as diretrizes clínicas internacionais.
Um exemplo desse processo foi a decisão da Food and Drug Administration (FDA), em novembro de 2025, de revisar alertas relacionados à terapia hormonal para a menopausa, acompanhando a evolução das evidências científicas e atualizando aspectos regulatórios sobre seu uso quando corretamente indicado. O movimento ajuda a contextualizar a atualidade de debates sobre saúde hormonal que já eram levantados pelo professor décadas atrás.
Nesse cenário, a individualização dos tratamentos consolidou-se como um dos princípios da medicina contemporânea, especialmente nas decisões relacionadas à saúde hormonal. O que antes podia ser visto como uma provocação científica passou a dialogar com uma concepção mais ampla de cuidado. “Esse modelo representa, na verdade, um resgate da medicina clássica, na qual o tratamento é manipulado e formulado de maneira singular para cada indivíduo, garantindo a eficácia e a segurança através de intervenções adequadas a cada caso clínico”, destaca Luiz Carlos Calmon, que também é diretor da Sociedade Brasileira de Medicina Personalizada.
O legado científico que continua inspirando
Para a Elmeco, empresa fundada na Bahia por Elsimar Coutinho em 1993, seus princípios servem como alicerce para seguir com o desenvolvimento da medicina e de novas descobertas em saúde. Segundo a diretora executiva da organização, Patrícia Rudge, preservar esse legado científico exige um compromisso com a evolução da ciência alinhada aos pilares de segurança, qualidade e personalização que definiram a carreira do médico.
“Décadas antes da medicina personalizada se tornar um dos principais pilares da prática clínica, ele já defendia que as decisões terapêuticas deveriam ser baseadas em evidências científicas, na fisiologia e nas necessidades individuais de cada mulher, ou paciente. Esse talvez seja seu maior legado: mostrar que ciência, inovação e personalização caminham juntas na construção de uma medicina voltada para impactar e transformar positivamente a qualidade de vida de cada paciente”, afirma.
30 anos depois: o que mudou na saúde da mulher?
Três décadas depois da publicação de Menstruação: A Sangria Inútil, o cenário da saúde feminina é bastante diferente. No Brasil, a discussão também ganha força no campo das políticas públicas, impulsionada pela tramitação do Projeto de Lei que institui a Política Nacional de Atenção Integral à Menopausa no Sistema Único de Saúde (SUS). A seguir, alguns dos principais avanços registrados desde a publicação do livro.
| 1996 | 2026 |
| A saúde menstrual ainda era pouco discutida fora do ambiente médico. | Saúde menstrual e menopausa passaram a integrar campanhas de conscientização, protocolos clínicos e políticas públicas. No Brasil, a Política Nacional de Atenção Integral à Menopausa está em discussão no Congresso, ampliando o debate sobre diagnóstico, tratamento e qualidade de vida. |
| A endometriose era frequentemente subdiagnosticada e muitas mulheres conviviam anos com dor sem diagnóstico. | A endometriose é reconhecida como um problema relevante de saúde pública. A OMS estima que a doença afete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, e novas diretrizes reforçam a importância do diagnóstico precoce e da redução do tempo até o tratamento. |
| A supressão menstrual era considerada uma ideia altamente controversa. | Hoje, sociedades médicas reconhecem a supressão menstrual como estratégia terapêutica válida em situações clínicas específicas, desde que baseada em evidências científicas, respeitando a autonomia da paciente e mediante indicação médica individualizada. |
| Os tratamentos hormonais ainda eram conduzidos predominantemente por protocolos padronizados. | A individualização terapêutica tornou-se um dos princípios da medicina contemporânea, com decisões clínicas cada vez mais baseadas nas características, necessidades e fatores de risco de cada paciente. |












