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Quando a fita passou a fazer parte da devoção do Senhor do Bonfim

  • Destaque 2, História e Patrimônio, Palavras, Sub-Editoria Palavras
  • 2026-01-15
  • Sem comentários
  • 2 minutos de leitura

Rerprodução

Colorida, simples e carregada de significados, a fita do Senhor do Bonfim é hoje um dos símbolos mais reconhecidos da religiosidade popular brasileira e da festa que mobiliza milhares de fiéis em Salvador. Mais do que um souvenir, ela se consolidou ao longo do tempo como amuleto de fé, esperança e devoção.

A tradição associada à fitinha envolve gestos silenciosos e crenças transmitidas de geração em geração. Segundo o costume popular, a fita é amarrada no pulso com um nó para cada pedido feito em pensamento — geralmente três. A crença diz que, quando a fita se rompe naturalmente, os desejos são atendidos, reforçando a ideia de entrega da fé ao tempo e à vontade divina.

A presença da fita na devoção ao Senhor do Bonfim remonta a 1809. Naquele ano, o então tesoureiro da Irmandade do Senhor do Bonfim, Manoel Antônio da Silva Servo, teve a iniciativa de criar um objeto que pudesse ser vendido para ajudar na arrecadação de recursos destinados à manutenção da devoção e da igreja. Assim surgiram as primeiras fitas, inicialmente chamadas de “medidas”.

Essas primeiras versões eram feitas de algodão e tinham até 50 centímetros de comprimento. O nome fazia referência à medida do braço direito da imagem do Senhor do Bonfim, o que reforçava o caráter simbólico e devocional do objeto. As “medidas” eram usadas de diferentes formas: no pescoço, presas às roupas ou guardadas como sinal de proteção.

Com o passar do tempo, a fita deixou de ser apenas um item de arrecadação e assumiu definitivamente o status de amuleto religioso. A industrialização alterou os materiais utilizados na produção e reduziu seu tamanho, tornando-a mais acessível e amplamente difundida. Paralelamente, a fitinha passou a expressar de forma ainda mais clara o sincretismo religioso presente na cultura baiana.

Hoje, as cores das fitas do Senhor do Bonfim são associadas não apenas ao santo católico, mas também aos orixás das religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Esse diálogo entre tradições reforça o papel da fita como símbolo de uma fé plural, marcada pelo encontro de diferentes heranças culturais e espirituais.

Mais de dois séculos depois de sua criação, a fita do Senhor do Bonfim segue atravessando pulsos, histórias e crenças, mantendo viva uma devoção que se renova a cada nó, a cada pedido e a cada gesto de fé.

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