Campanha mundial de 2026 põe a dor na meia-idade em foco; secura e desconforto íntimo ainda são pouco investigados
Sentir dor durante a relação depois dos 50 anos ainda costuma ser interpretado como uma consequência natural do envelhecimento ou da redução do desejo sexual. Embora seja frequente na menopausa, o desconforto não deve ser normalizado. Alterações hormonais podem afetar os tecidos da vulva, da vagina e do trato urinário, provocando secura, ardor, irritação e dor na penetração. Quando os sintomas persistem, investigar a causa permite recuperar conforto e qualidade de vida.
Bruna Paschoalim, médica ginecologista e especialista em estética íntima feminina, explica que muitas pacientes deixam de mencionar o problema durante a consulta por vergonha ou por acreditarem que não existe tratamento.
“Quando a relação começa a doer, algumas mulheres diminuem a frequência ou abandonam a vida sexual sem buscar ajuda. A dor recorrente precisa ser investigada, porque existem causas tratáveis e a conduta muda de acordo com o diagnóstico”, afirma.
Bruna Paschoalim é médica ginecologista e especialista em estética íntima feminina
O assunto ganha relevância às vésperas do Dia Mundial da Menopausa, celebrado em 18 de outubro. A Sociedade Internacional de Menopausa escolheu a dor crônica na meia-idade como tema de sua campanha de 2026. A entidade chama atenção para um problema ainda subestimado tanto nas pesquisas quanto no atendimento médico e defende que a dor nessa fase da vida seja reconhecida e tratada de forma individualizada.
A discussão acompanha uma mudança demográfica importante. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mulheres com 50 anos ou mais já representavam 26% da população feminina mundial em 2021, diante de 22% uma década antes. A entidade também alerta que efeitos ginecológicos comuns da menopausa, especialmente secura vaginal e dor durante as relações, continuam sem atendimento adequado em muitos países.
Parte desses sintomas integra a síndrome geniturinária da menopausa, nome dado ao conjunto de alterações relacionadas à queda do estrogênio. A condição pode atingir os lábios vulvares, a entrada e o canal vaginal, o clitóris, a uretra e a bexiga. Além da falta de lubrificação, podem surgir coceira, sensação de queimação, pequenas fissuras, sangramento após a relação, dor ao urinar, urgência urinária e infecções recorrentes.
Diferentemente das ondas de calor, que costumam diminuir com o passar do tempo em parte das mulheres, os sintomas geniturinários podem persistir e se intensificar quando não são tratados. Um estudo divulgado em junho de 2026, realizado com mais de 400 mulheres na pós-menopausa, encontrou sintomas mais frequentes e intensos entre aquelas que tiveram os ovários removidos. A publicação informa que a prevalência estimada da síndrome varia de 27% a 84%, diferença relacionada aos critérios utilizados nas pesquisas e à subnotificação do problema.
A queda hormonal, porém, não é a única explicação possível para a dor íntima. Infecções, doenças da pele da vulva, tensão excessiva da musculatura pélvica, endometriose, vulvodínia e determinados medicamentos também podem provocar desconforto. A avaliação ginecológica considera quando a dor começou, em qual região aparece, se ocorre em todas as relações e se está acompanhada de sangramento, corrimento, ardor ou sintomas urinários.
O tratamento depende da origem e da intensidade das queixas. Lubrificantes podem reduzir o atrito durante a relação, enquanto hidratantes vaginais são utilizados regularmente para melhorar a umidade do tecido. Fisioterapia pélvica, terapias hormonais locais e outras abordagens podem ser indicadas após a análise do histórico clínico, das necessidades e das possíveis contraindicações de cada paciente.
“Não existe uma única conduta adequada para todas as mulheres. O cuidado precisa considerar os sintomas, a saúde geral, a fase da menopausa e o impacto da dor na rotina. O objetivo não se limita à relação sexual: também envolve conforto para caminhar, praticar exercícios, dormir e realizar atividades comuns sem ardor ou irritação”, destaca Bruna.
Falar sobre vida íntima durante a consulta continua sendo uma barreira para muitas mulheres, mas o silêncio pode prolongar um desconforto que já interfere no relacionamento, na autoestima e no bem-estar. Depois dos 50, sentir dor não deve representar o preço inevitável do envelhecimento. Levar o sintoma ao ginecologista abre caminho para identificar sua origem e escolher o cuidado mais adequado.









