Dra. Renata Asnis, nefrologista, explica como pressão alta e glicemia descontroladas podem provocar danos progressivos aos rins e reforça a importância do acompanhamento preventivo
Os rins podem perder parte importante de sua capacidade de funcionamento sem provocar sintomas claros nas fases iniciais. É justamente essa característica silenciosa que faz da prevenção uma das principais estratégias contra a doença renal crônica.
Entre os fatores que mais merecem atenção estão duas condições extremamente comuns: hipertensão arterial e diabetes. Quando não estão adequadamente controladas, ambas podem comprometer progressivamente os vasos e as estruturas responsáveis pela filtração do sangue.
Para a Dra. Renata Asnis, nefrologista, esperar por sinais como inchaço, alterações importantes na urina ou indisposição para investigar a saúde renal pode significar descobrir o problema em uma fase mais avançada.
“Uma das dificuldades da doença renal é que o paciente pode se sentir bem mesmo quando já existe comprometimento da função dos rins. Por isso, principalmente para quem tem hipertensão ou diabetes, o acompanhamento não deve depender do aparecimento de sintomas. Prevenção significa identificar alterações quando ainda existe oportunidade de evitar ou retardar a progressão”, explica.
Por que a pressão alta prejudica os rins?
Os rins possuem uma extensa rede de pequenos vasos sanguíneos envolvidos no processo de filtração. Quando a pressão arterial permanece elevada por períodos prolongados, essa estrutura pode sofrer danos progressivos.
O problema também pode funcionar como uma via de mão dupla: a hipertensão prejudica os rins e alterações renais podem dificultar ainda mais o controle da pressão.
“A pressão alta não controlada mantém os vasos submetidos a uma sobrecarga contínua. Com o passar do tempo, isso pode comprometer a capacidade de filtração. O paciente não necessariamente percebe esse processo acontecendo, o que reforça a necessidade de medir a pressão e acompanhar a função renal regularmente”, afirma Renata.
Diabetes também exige atenção aos rins
No diabetes, níveis persistentemente elevados de glicose no sangue também podem provocar lesões nos pequenos vasos renais. A chamada doença renal do diabetes pode evoluir lentamente ao longo dos anos.
Por isso, controlar a glicemia não significa apenas prevenir episódios imediatos de aumento do açúcar no sangue.
“Quando falamos em controle do diabetes, estamos pensando também na prevenção das complicações futuras. Os rins estão entre os órgãos que podem ser afetados. Manter a glicemia dentro das metas estabelecidas individualmente pelo médico é uma forma de reduzir esse risco”, ressalta a nefrologista.
Exame de sangue sozinho pode não contar toda a história
A creatinina é frequentemente utilizada para avaliar a função renal, mas a investigação preventiva pode envolver também a estimativa da taxa de filtração glomerular e a pesquisa de proteínas, especialmente albumina, na urina.
Esses dados precisam ser interpretados de acordo com o perfil clínico de cada paciente.
“Não devemos esperar uma alteração muito expressiva da creatinina para começar a olhar para os rins. Em pacientes de risco, a avaliação da urina também é importante, porque a presença de albumina pode indicar lesão renal. Os exames precisam ser analisados em conjunto e dentro da história daquele paciente”, explica.
Não sentir nada não significa que os rins estão bem
Esse talvez seja um dos principais desafios da prevenção renal. Como a doença pode permanecer assintomática durante bastante tempo, muitas pessoas só procuram o nefrologista depois de uma alteração encontrada em exames ou quando surgem manifestações mais evidentes.
Para quem já apresenta fatores de risco, o acompanhamento deve acontecer antes disso.
“Hipertensão, diabetes, histórico familiar de doença renal e doenças cardiovasculares são exemplos de situações que justificam atenção maior. O objetivo é justamente não esperar que o organismo dê um sinal tardio para começar a agir”, orienta Renata.
Hábitos cotidianos também entram na prevenção
Controle do peso, prática de atividade física, alimentação equilibrada, redução do excesso de sal e adesão correta aos medicamentos prescritos fazem parte da proteção cardiovascular e renal.
Outro cuidado é evitar automedicação, principalmente o uso frequente e indiscriminado de determinados anti-inflamatórios, que pode representar risco adicional para algumas pessoas.
“Proteger os rins não depende de uma única medida. Pressão, glicemia, alimentação, medicamentos e estilo de vida fazem parte do mesmo cuidado. E quem já possui doença renal precisa de orientações individualizadas, inclusive sobre hidratação e alimentação, porque recomendações genéricas nem sempre servem para todos”, afirma.
Para a especialista, descobrir precocemente uma alteração renal muda a possibilidade de intervenção.
“Não podemos recuperar todo dano renal já estabelecido, mas muitas vezes conseguimos atuar sobre os fatores que aceleram sua progressão. Controlar bem hipertensão e diabetes é uma das estratégias mais importantes para preservar a função dos rins pelo maior tempo possível”, finaliza a Dra. Renata Asnis, nefrologista.
Sobre a especialista
Dra. Renata Asnis é nefrologista, com atuação na prevenção, diagnóstico e acompanhamento das doenças renais. Seu trabalho envolve o cuidado da função renal e de fatores diretamente relacionados à saúde dos rins, como hipertensão arterial, diabetes e alterações metabólicas, com foco na prevenção da progressão da doença renal crônica.








