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A escuta da escuridão

  • Balbúrdia, Destaque 1-palavras, Palavras, Sub-Editoria Palavras
  • 2026-09-21
  • Sem comentários
  • 4 minutos de leitura

O Três de Maio, Goya, 1814, Museu do Prado, Madrid

Por Gerson Brasil

Momentaneamente não era possível avançar: havia o risco de tropeçar em algum móvel da sala. Colhida na escuridão, o tamanho não tinha envergadura para proporcionar orientação, nem influenciar a memória, alguma recordação. “Onde estaria o alabastro? E as paredes? Sumiram?” Buscou um ponto de apoio, abriu os braços, desistiu de fazer o mesmo com as pernas, pensou em rodar — uma tolice mimada, apenas marcaria o desalinho. As paredes carregavam quadros, sabia; e sabia mais adiante, porque não eram quadros de verdade: cópias compradas, páginas de revistas emolduradas, cartazes de filmes, a imprimir um sabor especial; mas, nesse momento, tornaram-se ameaçadores como O Três de Maio de Goya.

Desapareceu a certeza da imitação. Abaixou-se, quase acocorada, tomada pelo medo de que os disparos pudessem se misturar na escuridão e causar algum estrago. Na posição em que se encontrava, levantar a mão e acenar para a Gilda, Rita Hayworth — considerando que fumava e o vestido era muito longo —, seria imprudente e desrespeitoso, como fatiar peras. E o que Rita poderia fazer? Convencer os atiradores a aguardar o momento certo, porque tinha gente na sala? Susan Perez de Almeida fora surpreendida. Por que escolheu aquela noite? Não poderia esperar a casa ganhar cores, as paredes amarelas, o grande vaso vermelho em cima do piano com flores de pano e um breve lenço de cetim impedindo a intimidade com a madeira escurecida por algum tipo de verniz?

Apurou bem os olhos, voltou a ficar em pé, ensaiou passos à frente. O corpo reclamava objetividade. Sentiu-se apócrifo e mastodonte e, na iminência da revolta, traçou uma conjuração: exibiria um mal-estar. Nada tão desigual que não pudesse ser reconhecido: uma inesperada falta de ar, uma sonolência na despedida dos hormônios e a clássica enxaqueca.

Súbito, Susan adivinhou, devido a uma leve vibração do corpo, ter escutado a Ave Maria de Bach/Gounod. Elevou a cabeça sacrossanta e, para contrariar os místicos, certificou-se de que todas as moléculas estavam unidas e felizes à espera de exercerem prerrogativas que lhes foram confiadas “ad saeculorum”. Riu, saboreou o truque e lembrou o dia em que foi ungida com água benta.

Pensou em fazer uma lista de interrogações para iludir a situação em que se encontrava, mas não estava disposta a trocar de horário. Nas manhãs, chocolate com biscoitos de manteiga; e às tardes, sorvete de framboesa. Como um miracolo di Dio, deixava-se surpreender por ternos, gravatas, sapatos alinhados, mas velhos conhecidos. Era como ler um romance na cama: 25 páginas e o desinteresse educadamente o retirava da mão e o colocava para dormir no outro lado da cama.

— Bonsoir, mon ami.
— Amanhã estaremos juntos.
— Não estou com pressa, e lembre-se de que a estante é coberta de paciência e acolhedora em tempo integral.

Novamente, resolveu dar uns passos, cambaleou à direita e à esquerda, temeu cair. Olhou para cima na esperança de ver alguma coisa e percebeu que tudo estava na escuridão. Respirou ofegante e enfurecida. Não era possível ensaiar revolta e nem recitar longas litanias no combate ao mal social e já tinha descartado, anteriormente, juras de amor e de adoção sublime, cuja eficácia ainda não tinha sido comprovada cientificamente.

— Como tudo pode estar na escuridão se na vida há muitas coisas que ficam de fora? Não fui ao casamento de Raquel e nem viajei com a família para Rio das Flores. Raquel sempre me cobra; as amigas — quer dizer, as inimigas — também me aborrecem pela ausência. Não se dão conta. Não cabe tudo na vida. Vive-se de modo percentual.

Adotei essa prática para poupar aborrecimentos, despender menos energia de modo involuntário e me proteger das vicissitudes da vida. Não gostaria, por exemplo, de ser testemunha de um assassinato, ou de um roubo, ou da separação de um casal. Não gosto de cinema. Muita gente, a tela é descomunal; ninguém tem aquele tamanho e nem se beija com as mãos paralíticas. As mãos têm dedos e eles se movem, são teimosos, têm autonomia e são mais eficientes frente às empertigadas empregadas que limpam janelas.

Estava decidida a empreender meu caminho quando um frio se alinhou à escuridão, sem exigir blusa de manga comprida. Fechei as pernas rapidamente, erigindo uma barreira de granito; os pelos se curvaram na rememoração da obediência, a se abster de pecar por pensamentos, atos ou omissão.

O tinha planejado por conta da razão, por conta de encontros malsucedidos, por conta de superstição, por conta de não suportar mais uma derrota e para redimir os infortúnios que até então tinham me acasalado. Dias antes, quando estava costurando o caminho a ser percorrido, li numa revista científica de psicologia que as crianças tinham medos, mas se desfizeram. No final do artigo, não ficou claro se as crianças desistiram de si próprias ou se o medo desistiu por não encontrar mais mercado.

Nua, em pé, sem framboesa, sem chocolate, sem cigarro, sem bússola, destino antes planejado, e traçado com extrema convicção, agora era uma questão de acreditar em deus e seguir adiante ou “ficar parada na escuridão com tudo me olhando, e eu sem nada ver, e na dúvida se o acaso propositadamente me escolhera ou a sorte me abandonou.

Por que uma mulher de 79 quilos, 45 anos, ridiculamente na perspectiva de também ser posta ao lado dos insurretos espanhóis, estava na iminência de um escândalo e bem afastada do plano mirabolante e vigente algumas horas antes?”

Não se apavorou; confirmou a firmeza dos braços e o embaraço harmonioso dos óleos deixados pelo sabonete Nesti Dante nos poros da pele, como referência de acuidade com o corpo, mesmo estando em posição de ser estatelada como espiã ou violadora de direitos alheios.

Na anamnese, “nunca fiz mal a ninguém; certa vez fui ultrapassada por uma jovencita e lancei pragas, ingenuamente. Vou voltar para o sorvete de framboesa e o chocolate, quem sabe surja a companhia dessas coisas que ficam fora da vida. Tenho fé em deus, mas o sorvete de framboesa é incomensurável, vou recomendá-lo.”

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