Por Gina Marocci
As encostas de Salvador revelam a topografia acidentada que a caracteriza, em que se alternam cumeadas e vales, onde riachos e rios se conectam para desaguar no mar. Erguida sobre um platô, a cerca de 60 metros acima do mar, o seu frontispício sempre foi marcado pela exuberância da mata atlântica. Essa característica chamou a atenção de profissionais das mais diversas áreas de estudo, e ficou eternizada em obras de arte e fotografias. O fontispício de Salvador, elaborado pelo engenheiro militar Amadeu Frezier em 1716, representa a cidade alta e a cidade baixa separadas pela íngreme encosta, que é vencida por ladeiras delimitadas por fileiras de edificações. No detalhe, a fachada da Sé, onde hoje temos o Belvedere da Sé, tendo do lado lado direito os prédios da Misericórdia, ainda apresenta as torres e o revestimento de pedra da catedral. Podemos verificar que a cidade alta se estende ao longo do que chamamos de primeira cumeada, parte alta entre a encosta para o mar e o vale interno do rio das Tripas. Essa primeira cumeada se estende até o largo de Santo Antônio Além do Carmo.

Ao longo dessa encosta, apesar do recobrimento vegetal natural, sempre ocorreram deslizamentos de terra, que foram alargando a faixa estreita de solo à beira-mar. Na cidade baixa, construir tão próximo da encosta era um risco, pois vidas podiam ser perdidas, além do patrimônio material.
O historiador Affonso Ruy registrou, em seu livro História Política e Administrativa da Cidade do Salvador, alguns momentos marcantes dos primórdios da cidade: em 1721, após muita chuva, a terra correu sobre o casario da Preguiça e da Conceição; em 1732, novo deslizamento aconteceu, apesar de não haver uma indicação do local, registraram-se 7 pessoas mortas; novo deslizamento em 1737, que exigiu uma grande obra para contenção das terras. Contudo, a obra levou 22 anos para ser concluída, ou seja, em 1759, num trabalho conjunto entre o governo da capitania e a Câmara.
O engenheiro militar José Antônio Caldas, soteropolitano, professor da Aula Militar da Bahia, desenhou o frontispício de Salvador em 1758. No trecho que destacamos dá para perceber um deslizamento ou, então, uma contenção à frente da antiga Sé. Será que esse trecho faz parte da obra que levou mais de 20 anos para ser concluída? No mesmo desenho podemos ver, à esquerda, o Palácio Arquiepiscopal, ligado à Sé por um passadiço, a igreja de São Pedro dos Clérigos, que foi reconstruída no Terreiro de Jesus, justamente pelo risco que a encosta representava, e os prédios do conjunto dos jesuítas, ou seja, o Colégio e a capela, atual Catedral Basílica.

Outro engenheiro militar, Manuel Rodrigues Teixeira, elaborou um projeto maior para a contenção da encosta entre a Sé e o Terreiro de Jesus, uma obra que teria 110 m de comprimento por 5,5 m de altura, possivelmente datada de 1786. No trecho do desenho de Teixeira, aqui registrado, vemos à direita, no destaque, a antiga Catedral sem as torres e sem o revestimento de pedra, retirados para reduzir o peso sobre a encosta. Duas estruturas de contenção aparecem tomando toda a encosta logo abaixo da igreja. Ao lado dela, o Palácio Arquiepiscopal parece ter também alguma contenção, ou seria a proposta do autor do projeto.

Nos invernos de 1812 e 1813, deslizamentos de terra ocorreram nas regiões próximas ao Trapiche Barnabé, onde 34 pessoas morreram, Misericórdia, Conceição e Gamboa, portanto, era imperativo investir em contenções da encosta. Algumas fotografias da segunda metade do século XIX indicam que foram realizados investimentos em obras de contenção desse mesmo trecho. Novamente colocamos a antiga Sé na área em destaque. Podemos verificar que todo o trecho abaixo do pequeno largo à frente da igreja está sustentado por paredões de pedra. O mesmo podemos verificar tanto do lado esquerdo quanto do direito.

No século XIX, a cidade ainda teria muitos deslizamentos e desabamentos com perdas de vidas e de patrimônio. No século XX, as tragédias se espalharam pelas diversas encostas: subúrbio ferroviário, o miolo da cidade, e nos bairros mais longínquos. A partir da década de 1980, tanto o governo municipal como o estadual investiram na contenção de encostas, mas somente em 2000 é que a cidade ganhou o Plano Diretor de Encostas, um instrumento fundamental para mapear, diagnosticar e direcionar os recursos às áreas de maior risco.
REFERÊNCIAS
MAROCCI, G. V. P. Salvador, século XVIII: a emergência de novos padrões urbanísticos. 1996, Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1996.
SOUZA, A. R.História Política e Administrativa da Cidade do Salvador. Salvador: PMS, 1949. Publicação Comemorativa do Quarto centenário da Cidade.

















