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EXCLUSIVO! Gina Marocci fala sobre a segurança das encostas de Salvador

  • História e Patrimônio, Palavras, Secundário 2, Sub-Editoria Palavras
  • 2025-07-29
  • Sem comentários
  • 4 minutos de leitura

Por Gina Marocci

As encostas de Salvador revelam a topografia acidentada que a caracteriza, em que se alternam cumeadas e vales, onde riachos e rios se conectam para desaguar no mar. Erguida sobre um platô, a cerca de 60 metros acima do mar, o seu frontispício sempre foi marcado pela exuberância da mata atlântica. Essa característica chamou a atenção de profissionais das mais diversas áreas de estudo, e ficou eternizada em obras de arte e fotografias. O fontispício de Salvador, elaborado pelo engenheiro militar Amadeu Frezier em 1716, representa a cidade alta e a cidade baixa separadas pela íngreme encosta, que é vencida por ladeiras delimitadas por fileiras de edificações. No detalhe, a fachada da Sé, onde hoje temos o Belvedere da Sé, tendo do lado lado direito os prédios da Misericórdia, ainda apresenta as torres e o revestimento de pedra da catedral. Podemos verificar que a cidade alta se estende ao longo do que chamamos de primeira cumeada, parte alta entre a encosta para o mar e o vale interno do rio das Tripas. Essa primeira cumeada se estende até o largo de Santo Antônio Além do Carmo.

Frontispício de Salvador elaborado pelo engenheiro militar Amadeu Frezier em 1716.

Ao longo dessa encosta, apesar do recobrimento vegetal natural, sempre ocorreram deslizamentos de terra, que foram alargando a faixa estreita de solo à beira-mar. Na cidade baixa, construir tão próximo da encosta era um risco, pois vidas podiam ser perdidas, além do patrimônio material.

O historiador Affonso Ruy registrou, em seu livro História Política e Administrativa da Cidade do Salvador, alguns momentos marcantes dos primórdios da cidade: em 1721, após muita chuva, a terra correu sobre o casario da Preguiça e da Conceição; em 1732, novo deslizamento aconteceu, apesar de não haver uma indicação do local, registraram-se 7 pessoas mortas; novo deslizamento em 1737, que exigiu uma grande obra para contenção das terras. Contudo, a obra levou 22 anos para ser concluída, ou seja, em 1759, num trabalho conjunto entre o governo da capitania e a Câmara.

O engenheiro militar José Antônio Caldas, soteropolitano, professor da Aula Militar da Bahia, desenhou o frontispício de Salvador em 1758. No trecho que destacamos dá para perceber um deslizamento ou, então, uma contenção à frente da antiga Sé. Será que esse trecho faz parte da obra que levou mais de 20 anos para ser concluída? No mesmo desenho podemos ver, à esquerda, o Palácio Arquiepiscopal, ligado à Sé por um passadiço, a igreja de São Pedro dos Clérigos, que foi reconstruída no Terreiro de Jesus, justamente pelo risco que a encosta representava, e os prédios do conjunto dos jesuítas, ou seja, o Colégio e a capela, atual Catedral Basílica.

Trecho do frontispício de José Antônio Caldas (1758).

Outro engenheiro militar, Manuel Rodrigues Teixeira, elaborou um projeto maior para a contenção da encosta entre a Sé e o Terreiro de Jesus, uma obra que teria 110 m de comprimento por 5,5 m de altura, possivelmente datada de 1786. No trecho do desenho de Teixeira, aqui registrado, vemos à direita, no destaque, a antiga Catedral sem as torres e sem o revestimento de pedra, retirados para reduzir o peso sobre a encosta. Duas estruturas de contenção aparecem tomando toda a encosta logo abaixo da igreja. Ao lado dela, o Palácio Arquiepiscopal parece ter também alguma contenção, ou seria a proposta do autor do projeto.

Trecho do projeto de Manuel Rodrigues Teixeira para contenção da encosta entre a Sé e o Terreiro de Jesus

Nos invernos de 1812 e 1813, deslizamentos de terra ocorreram nas regiões próximas ao Trapiche Barnabé, onde 34 pessoas morreram, Misericórdia, Conceição e Gamboa, portanto, era imperativo investir em contenções da encosta. Algumas fotografias da segunda metade do século XIX indicam que foram realizados investimentos em obras de contenção desse mesmo trecho. Novamente colocamos a antiga Sé na área em destaque. Podemos verificar que todo o trecho abaixo do pequeno largo à frente da igreja está sustentado por paredões de pedra. O mesmo podemos verificar tanto do lado esquerdo quanto do direito.

Trecho da fotografia do inglês Benjamin Mulock, 1860.

No século XIX, a cidade ainda teria muitos deslizamentos e desabamentos com perdas de vidas e de patrimônio. No século XX, as tragédias se espalharam pelas diversas encostas: subúrbio ferroviário, o miolo da cidade, e nos bairros mais longínquos. A partir da década de 1980, tanto o governo municipal como o estadual investiram na contenção de encostas, mas somente em 2000 é que a cidade ganhou o Plano Diretor de Encostas, um instrumento fundamental para mapear, diagnosticar e direcionar os recursos às áreas de maior risco.  

REFERÊNCIAS

MAROCCI, G. V. P. Salvador, século XVIII: a emergência de novos padrões urbanísticos. 1996, Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1996.

SOUZA, A. R.História Política e Administrativa da Cidade do Salvador. Salvador: PMS, 1949. Publicação Comemorativa do Quarto centenário da Cidade.

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