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Afinal, o que é felicidade? Uma definição (im)possível

  • Atitude, Comportamento, Principal, Sub-Editoria Atitude
  • 2025-07-28
  • Sem comentários
  • 5 minutos de leitura

Felicidade: palavra pequena, conceito imenso. A tentativa de definir o que é ser feliz esbarra, desde o princípio, em sua natureza múltipla, instável e profundamente subjetiva. A felicidade pode ser alegria intensa ou serenidade silenciosa; pode estar num instante de prazer, numa sensação de sentido ou numa realização construída com o tempo. Pode ser efêmera como o riso de uma criança ou durável como a paz interior de quem se reconcilia com a própria vida. Em muitos casos, é tudo isso ao mesmo tempo.

Na sociedade contemporânea, no entanto, a felicidade deixou de ser uma busca íntima para se tornar uma obrigação pública. Estamos imersos numa cultura que impõe ser feliz como um dever, como uma meta a ser constantemente exibida — nas redes, no consumo, no desempenho. A felicidade virou performance. Mas será que isso é real? Será que é possível, ou mesmo desejável, ser feliz o tempo todo?

Felicidade como ideal: o olhar da filosofia

Desde os tempos antigos, pensadores tentaram decifrar esse enigma. Para a filosofia grega, por exemplo, a felicidade não era apenas um estado de espírito, mas o objetivo maior da existência humana — o telos. Aristóteles chamava essa felicidade de eudaimonia, termo que traduzimos de forma imprecisa como “vida boa” ou “florescimento”. Para ele, a felicidade estava em viver segundo a virtude, em consonância com a razão e o que há de melhor em nós.

“A felicidade é o sentido e o propósito da vida, o único objetivo e a finalidade da existência humana.” — Aristóteles, Ética a Nicômano

Outras escolas filosóficas, como o estoicismo, também associaram a felicidade à sabedoria e à ética. Estóicos como Sêneca e Epicteto acreditavam que ser feliz era aceitar o que não se pode controlar e viver com liberdade interior. Um pensamento que ressoa com força no presente, quando somos cobrados a dar conta de tudo, sem pausa, sem falha, sem dor.

Em todas essas abordagens, a felicidade está vinculada não à posse de coisas, mas a um modo de viver coerente com o que se considera valioso.

A psicologia positiva: entre afetos e realizações

No campo da psicologia, a felicidade também deixou de ser vista como mero prazer momentâneo. Martin Seligman, um dos pioneiros da Psicologia Positiva, propôs o modelo PERMA — cinco pilares que sustentam o bem-estar humano: Emoções Positivas, Engajamento, Relacionamentos Positivos, Propósito e Realizações. Para ele, trabalhar essas dimensões cotidianamente nos ajuda a construir uma vida mais significativa e satisfatória.

Mas a psicologia também aponta os riscos de associar felicidade a uma idealização inalcançável. Como lembra o psicólogo Lucas Veiga, a ideia de uma felicidade plena e imutável é ilusória:

“É comum acreditarmos que a felicidade seria um estado sublime, onde não mais seríamos afetados por tristezas e mal-estar. Mas felicidade, como qualquer emoção, passa.” — Lucas Veiga, Casa do Saber

Sob a ótica da psicanálise, não existe uma fórmula única para a felicidade. Cabe a cada sujeito descobrir, em sua história singular, quais objetos e relações podem lhe gerar satisfação — o que o move, o que o preenche, o que o faz sentir vivo.

Os hormônios da felicidade: o corpo também sente

A ciência também investiga os mecanismos biológicos por trás da felicidade. Estudos em neurociência identificaram quatro neurotransmissores-chave para o bem-estar:

·         Dopamina: associada à motivação e prazer.

·         Serotonina: ligada ao humor e à estabilidade emocional.

·         Endorfina: alivia dores e gera sensação de prazer.

·         Ocitocina: associada ao afeto, confiança e vínculo.

Mas, como alerta o sociólogo Arthur Brooks, a felicidade genuína não vem da excitação constante ou da busca por estímulos externos. Ela nasce do cultivo de valores profundos como amor, gratidão, propósito e conexão com algo maior.

Felicidade é subjetiva?

Sim, a felicidade é subjetiva — mas não apenas. Sentir-se feliz depende tanto da interpretação individual quanto de fatores objetivos: saúde, vínculos, oportunidades, segurança. Como lembra o professor Tanguy Baghdadi, vivemos sob padrões sociais que ditam como deveríamos ser felizes. Felicidade virou um roteiro pré-fabricado: ter sucesso, corpo ideal, viagens caras e muitos likes. Mas será mesmo que essa fórmula vale para todos?

“Será que nos sentimos felizes porque nos dizem que aquilo é felicidade?” — Tanguy Baghdadi, Casa do Saber

O risco da positividade tóxica e o cansaço da performance

Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, analisa como a felicidade se tornou uma exigência solitária. Cada um é responsável por estar feliz — e, se não está, é porque falhou. Essa lógica nos adoece. As redes sociais reforçam esse ciclo, vendendo uma felicidade plastificada, filtrada e performática. Quem não corresponde a essa imagem se sente deslocado ou insuficiente.

Mas a felicidade verdadeira não se mede em curtidas. Ela se constrói na imperfeição da vida real, nas relações genuínas e no encontro com o que nos é significativo.

Caminhos possíveis para ser feliz

Felicidade não é destino, é percurso. E embora não haja receita, algumas práticas podem nos aproximar dela:

·         Cultivar vínculos afetivos: Relações de apoio e afeto ampliam nosso senso de pertencimento.

·         Buscar um propósito: Descobrir o que nos move, ainda que nas pequenas coisas.

·         Cuidar do corpo e da mente: Alimentação, sono, movimento e saúde emocional são pilares do bem-estar.

·         Viver o presente: Desacelerar para saborear os momentos simples da vida.

·         Acolher a tristeza: Ela não é o oposto da felicidade, mas parte da vida emocional plena.

·         Buscar autoconhecimento: Entender a si mesmo é chave para fazer escolhas mais alinhadas com nossos valores.

Felicidade na história: entre o bem e o mal, o desejo e a virtude

Desde Zoroastro, Confúcio e Buda até pensadores modernos como Freud, Rousseau, Kant e Hannah Arendt, a felicidade foi associada a conceitos tão diversos quanto amor, justiça, sabedoria, liberdade, desejo, serenidade e comunhão. Para Epicuro, era satisfação equilibrada dos desejos. Para os céticos, vinha da suspensão do julgamento. Para o cristianismo, da comunhão com Deus. Para o budismo, da superação do sofrimento. Já para Freud, a felicidade era inevitavelmente parcial, pois o mundo não pode atender a todos os nossos desejos.

Na modernidade, felicidade é também qualidade de vida, liberdade, autoestima. E para a ciência, pode até ser parcialmente determinada por nossa genética, como apontaram estudos de David Lykken. Mas, sobretudo, ela depende de atitudes, escolhas e relações.

O plural da felicidade

Diante de tantas definições, talvez a única certeza seja: a felicidade não cabe numa definição única. Ela é plural, contextual, relacional. Não há uma resposta definitiva, mas muitas respostas possíveis. Como nos ensinou uma criança ao rodopiar e gritar “Eu estou feliz!”, a felicidade pode emergir do simples, do espontâneo, do encontro.

Usar a palavra no plural — felicidades — talvez seja nosso melhor gesto de honestidade diante da complexidade da vida. Felicidades nas pequenas alegrias, nos momentos de conexão, nos silêncios cheios de paz.

“Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.” — Carlos Drummond de Andrade

Talvez, ao final, ser feliz não seja sobre encontrar uma definição. Mas sobre viver de maneira inteira — com presença, afeto e coragem — todos os dias que pudermos.

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