Por Albenísio Fonseca
Com aplicação de extraordinários recursos em technicolor e cenas fabulosas de rituais em aldeia Pataxó e da ligação dos quilombos com elementos naturais de atividades primárias como a agricultura – tem estreia nacional nos cinemas de todo o país, neste 2 de outubro, o filme Aprender a Sonhar, do cineasta Vítor Rocha.
O filme aborda e celebra, coincidentemente, os 23 anos da adoção de cotas raciais para o acesso de estudantes ao ensino superior no Brasil. Uma mudança fabulosa de perspectiva na vida de contingentes sociais até então excluídos da vida e formação universitária no país.
A obra revela a trajetória surpreendente de alunos a consolidarem suas formações em abordagem inédita no cinema. No que lembram vivências nos cursos, celebram avanços, avaliam o cenário atual e nos fazem viver o passado de cada um, em meio ao futuro que se desvela.
Vale lembrar que a Ufba-Universidade Federal da Bahia fez seu primeiro vestibular com cotas raciais em 2004. De lá para cá, houve muitas mudanças, como a implementação da Lei de Cotas, em 2012, e a criação da banca de heteroidentificação, que a antecede em 2003, na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), mas se consolidaria através da Portaria Normativa nº 04/2018, publicada pelo governo federal. A primeira universidade a aprovar as cotas foi a Uneb, em 2002, com a reitora negra Ivete Sacramento, ao seguir longa reivindicação dos movimentos sociais negros.
A narrativa fílmica acompanha o cotidiano e momentos marcantes dos personagens na busca pela sobrevivência e pelo direito de ocupar espaços convencionais da formação superior sem terem que abrir mão de seus territórios, culturas e tradições.
O filme mostra como a quilombola Marina Barbosa conseguiu se formar em medicina na UFBA. Como se deu a trajetória de conquista da casa própria e do diploma da ex-moradora de ocupação Nadjane Cristina.
Conta, também, como se deu a transformação de Ana Paula Rosário, que já cumpriu medidas socioeducativas e hoje é pesquisadora de sociologia, além das vivências de Taquari e Tamiwere Pataxó, que se formaram em Direito sem abrir mão de seus territórios, culturas e tradições.
Todos são unânimes em demonstrar o quanto as cotas proporcionaram superação e evolução no enfrentamento aos preconceitos.
Longe de se encerrar em relatos individuais, o filme, ao passo que intercala a aparição das histórias de cada estudante, ganha um ritmo revelador da conexão entre todos eles: os protagonistas são portadores de saberes ancestrais que durante séculos foram impedidos de participar dos centros oficiais de produção e disseminação do conhecimento.
A poderosa iniciativa fílmica e documental de Vítor Rocha desoculta muitas dimensões e camadas interligadas ao mostrar que, à revelia da indiferença e invisibilidade construídas pela perspectiva até então hegemônica, uma rebelião se instaura e avança sobre espaços do saber, antes formatados apenas para poucos privilegiados.
Muito mais que um registro cinematográfico, o que vamos poder assistir nas telonas é um manifesto “afropindorâmico” – na expressão do pensador quilombola contracolonial Nêgo Bispo –, uma vocalização dos corpos políticos que foram silenciados na fundação e perpetuação do Estado brasileiro.
Distribuição baiana
A distribuição é feita pela Abará Filmes e a produção pela Caranguejeira Filmes – produtoras baianas lideradas por Vítor Rocha.
Aprender a Sonhar é o quarto de cinco longas distribuídos pela Abará Filmes, incluindo 1798 Revolta dos Búzios, de Antonio Olavo; Revoada, de José Umberto Dias, Brazyl, uma Ópera Tragicrônica, de José Walter Lima, e Minha Cuba, Minha Máxima Cuba, de Júlio Góes.
A distribuição é financiada pela Lei Paulo Gustavo Bahia, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e do Ministério da Cultura (MinC), e a produção tem financiamento do MinC e da Ancine/BRDE/FSA, Governo Federal.
A Abará também já distribuiu duas temporadas da série de mesmo nome, Aprender a Sonhar, exibidas nas TVs Públicas do Brasil, entre elas TV Brasil, TV Cultura, TVE-BA, além de canais fechados e plataformas de streaming.
O filme Aprender a Sonhar reforça o que revelam as pesquisas mais recentes sobre ações afirmativas na educação: após 23 anos da política de cotas, houve um significativo processo de democratização no acesso ao ensino superior, até então um dos patamares da educação mais elitizados da sociedade. Em consequência, tanto as práticas pedagógicas quanto a função social da Universidade sofreram reconfigurações profundas no presente e para com o futuro do país.
FICHA TÉCNICA
Brasil | Ano 2025 | Longa-Metragem | Documentário | 79’ | Português, Patxohã
Direção e Roteiro:
Vítor Rocha
Elenco: Taquary, Tamiwere e Povo Pataxó
da Reserva da Jaqueira | Marina Barbosa e Quilombo Quenta Sol | Nadjane Cristina e Ocupação Quilombo Paraíso | Ana Paula e família Rosário.
Distribuição:
Abará Filmes
Produção:
Caranguejeira Filmes
SERVIÇO
Estreia nacional do documentário, longa-metragem, Aprender a Sonhar, um filme de Vítor Rocha.
Quando: 2 de outubro
Onde: Cinemas de Arte – diversas cidades do Brasil, como Salvador, Vitória da Conquista, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Florianópolis, Maceió, Aracaju.

















