Especialista da Starbem explica por que torcedores vivem frustração, tristeza e até uma sensação de luto quando a Seleção é eliminada
A eliminação da Seleção Brasileira da Copa do Mundo neste domingo, 5 de julho, encerra mais do que uma participação dentro de campo. Para milhões de brasileiros, o apito final também representa o fim de uma expectativa construída durante anos, despertando sentimentos de frustração, tristeza e até um vazio difícil de explicar.
Embora racionalmente todos saibam que se trata de um jogo, do ponto de vista psicológico o futebol ocupa um espaço muito maior. A Seleção funciona como um símbolo de identidade coletiva, pertencimento e esperança. Durante a Copa, pessoas reorganizam a rotina, reúnem amigos e familiares, vestem as cores do país e compartilham uma expectativa comum. Quando o resultado não vem, é natural que exista um impacto emocional.
Segundo Ticiana Paiva, doutora em Psicologia e head de Psicologia da Starbem, o cérebro interpreta essas experiências de maneira muito semelhante a outras perdas simbólicas.
“Representar um país envolve carregar expectativas de milhões de pessoas. Mesmo atletas experientes não ficam imunes a essa pressão, porque ela não desaparece com o tempo, apenas muda de forma.”
Embora a fala se refira aos jogadores, ela também ajuda a compreender o vínculo criado pelos torcedores. Quanto maior o investimento emocional em uma conquista, maior tende a ser a frustração quando ela não acontece.
Outro fator que intensifica esse sentimento é o envolvimento coletivo. Durante a Copa, o futebol deixa de ser apenas entretenimento e se transforma em um evento social. Conversas, memes, encontros, comemorações e expectativas passam a fazer parte do cotidiano, fazendo com que a derrota seja sentida quase como uma quebra abrupta de uma experiência compartilhada.
Ao mesmo tempo, a psicóloga lembra que existe uma diferença importante entre viver a tristeza de forma saudável e deixar que ela comprometa o bem-estar emocional.
“Ser forte não significa não sentir medo, frustração ou dor. Força psicológica tem mais relação com reconhecer as próprias emoções, processá-las e seguir em frente com clareza.”
Para a especialista, esse também é um momento para refletir sobre a pressão direcionada aos atletas. Após eliminações, críticas e ataques costumam ganhar força nas redes sociais, fazendo com que jogadores sejam vistos apenas pelo resultado obtido em campo.
“Performance sem cuidado cobra um preço alto. Todo mundo entende que um músculo lesionado precisa de tratamento. Precisamos normalizar a ideia de que a mente também se sobrecarrega e precisa de cuidado.”
Nos últimos anos, atletas como Neymar ajudaram a romper o tabu em torno da saúde mental ao falar publicamente sobre a importância do acompanhamento psicológico. Esse movimento contribuiu para mostrar que emoções como medo, ansiedade, frustração e tristeza fazem parte da experiência humana, inclusive para quem compete no mais alto nível.
Segundo Ticiana, cuidar da saúde emocional é tão importante quanto qualquer preparação física.
“A psicologia não ensina ninguém a vencer, mas reduz interferências emocionais e cognitivas que comprometem o desempenho. Em esportes de alto rendimento, muitas vezes o diferencial está justamente na capacidade de manter confiança, clareza e estabilidade emocional sob pressão.”
Ela conclui lembrando que a derrota não diminui a trajetória construída pelos atletas e que é preciso olhar para eles para além do resultado de um jogo.
“Pedir ajuda não diminui a força de ninguém, pelo contrário, ajuda a sustentar uma carreira mais longa. E é importante lembrar que, antes de serem ídolos, os jogadores são seres humanos. Nenhuma vitória vale a perda de si mesmo.”














