Pesquisas mostram como o senso de pertencimento de grupo, em apoio ao time de coração, influencia comportamentos extremos
Às vésperas de mais uma Copa do Mundo, pesquisas ajudam a explicar por que a paixão pelo futebol pode levar torcedores a comportamentos extremos, do altruísmo à violência. O pesquisador Tiago Bortolini, apoiado pelo IDOR Ciência Pioneira, lidera estudos que mostram que torcedores fanáticos pelos seus times passam a tratar a torcida e o seu clube de coração como uma extensão de si mesmos, a partir de mecanismos neurais, sociais e evolutivos.
Um dos estudos, publicado na revistaScientific Reports, da Nature, investigou o que acontece no cérebro de torcedores ao tomar decisões que beneficiam outras pessoas. Os resultados mostram que ajudar fãs que torcem pelo mesmo time ativa áreas associadas à recompensa e ao apego, como o córtex orbitofrontal medial e o córtex cingulado subgenual. Beneficiar alguém do próprio grupo, nesses casos, aciona respostas comparáveis às relações afetivas mais próximas, como uma família.
“A identificação com um time de futebol oferece um exemplo poderoso de como os seres humanos estendem seus vínculos de apego para além das relações familiares. Torcedores de futebol fanáticos pelo seu time experimentam um forte sentimento de pertencimento e muitas vezes percebem outros torcedores como uma espécie de ‘família psicológica’”, afirma Bortolini.
Esse tipo de vínculo ajuda a explicar por que torcedores se dispõem a fazer sacrifícios pessoais em nome do grupo, seja gastando tempo, dinheiro ou esforço para beneficiar outros fãs. Em experimentos, participantes chegaram a empregar mais esforço físico para gerar recompensas destinadas a torcedores do próprio time do que para pessoas sem essa ligação com o mesmo clube de coração.
Os mesmos mecanismos que sustentam esse comportamento também ajudam a entender situações de conflito. Outro estudo liderado por Bortolini, publicado na revista Evolution and Human Behavior, analisou o comportamento de torcedores brasileiros, apontando que episódios de violência no futebol não estão necessariamente ligados a desajustes individuais, mas a um tipo de vínculo intenso conhecido como “identity fusion”, em que a identidade pessoal e a do grupo se tornam profundamente conectadas.
Em ambientes como estádios e grandes competições, esse efeito tende a se intensificar. Um terceiro estudo com participação do pesquisador brasileiro, também publicado na revista Evolution and Human Behavior, investigou como experiências coletivas típicas das arquibancadas, como cantar, pular e vibrar em uníssono, influenciam a percepção dos próprios torcedores e de quem está ao redor. Os resultados mostram que esse tipo de sincronia aumenta a sensação de coesão e faz com que aquela torcida seja percebida como mais unida e mais “forte”, inclusive por rivais.
Os pesquisadores observaram que, quando os torcedores agem de forma sincronizada, há um alinhamento não só de comportamento, mas também de emoções e estados fisiológicos, o que reforça a identidade coletiva do grupo. Esse tipo de experiência compartilhada pode intensificar o sentimento de pertencimento e facilitar a formação de vínculos mais fortes entre os integrantes da torcida.
“Quando isso ocorre, torcedores podem sentir que o destino do time e da torcida é parte de quem eles são, o que ajuda a explicar tanto gestos altruístas quanto comportamentos violentos e de defesa do grupo”, diz o pesquisador.
Para Bortolini, o futebol pode funcionar como um laboratório para estudar como grupos humanos se formam e se comportam, especialmente em contextos de forte identificação coletiva.
As pesquisas dialogam com uma linha atual de investigação apoiada pelo IDOR Ciência Pioneira, que busca entender como experiências coletivas intensas podem desencadear emoções como deslumbramento, elevação e gratidão, estados associados ao aumento da conexão social e do senso de significado.
O grupo de pesquisa investiga como essas experiências funcionam como gatilhos para emoções que ampliam a percepção de pertencimento e significado, integrando aspectos da experiência subjetiva, da fisiologia e do contexto cultural.
Sobre o IDOR Ciência Pioneira
É uma iniciativa independente de apoio à ciência de fronteira do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino. Sem fins lucrativos, o projeto vai investir mais de R$ 500 milhões em pesquisas de ponta nos próximos dez anos. Fundada e financiada pela família Moll, controladora do Grupo D’Or, a iniciativa tem como foco o investimento em linhas de estudo promissoras e pouco exploradas na interface entre as ciências biomédicas e de saúde e as ciências exatas.














