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Como o cuidado da saúde aos 40 anos pode melhorar a vida aos 70 anos?

  • Destaque 1-envelhescência, Envelhescência, Sub-Editoria Envelhescência
  • 2026-09-10
  • Sem comentários
  • 2 minutos de leitura

Divulgação / Arnaldo Pinto Guedes de Paiva Neto

Por Arnaldo Pinto Guedes de Paiva Neto

A forma como se chega aos 70 anos pode ser comparada à fábula da formiga e da cigarra: a formiga representa quem se prepara para envelhecer; a cigarra, quem não se prepara e pode depender mais dos outros. O organismo funciona como um sistema aberto. Ele recebe matéria e energia do ambiente e as transforma, liberando calor e resíduos. É como uma casa que só permanece organizada porque coloca a desordem para fora.

Nesse processo, respirar também tem um custo biológico. O oxigênio participa da produção de energia e pode originar espécies reativas de oxigênio, entre elas os radicais livres. Quando ultrapassam as defesas e os mecanismos de reparo, contribuem para danos celulares. Entre as estruturas vulneráveis estão os telômeros, que protegem as extremidades dos cromossomos. Eles tendem a encurtar com as divisões celulares, e o estresse oxidativo pode acelerar esse processo.

A longevidade humana tem raízes na evolução, e a expectativa de vida aumentou com os avanços da medicina e da sociedade, que reduziram mortes precoces por infecções, traumas e doenças. O desafio é viver esses anos a mais com autonomia. Pior é chegar à dependência dos outros por algo que poderia ter sido evitado.

Hipertensão, diabetes, colesterol LDL elevado, triglicérides altos, obesidade, tabagismo e sedentarismo podem permanecer silenciosos enquanto aumentam o risco cardiovascular. O LDL elevado favorece a aterosclerose, que atinge as artérias, e elevam o risco de doença vascular cerebral, que pode contribuir para a demência vascular. Na meia-idade, também está associado a maior risco futuro de demência por doença de Alzheimer. Alterações vasculares podem coexistir com o Alzheimer e agravar o comprometimento cognitivo. Por isso, cuidar do colesterol aos 40 anos pode repercutir na saúde do cérebro aos 70 anos.

Outro patrimônio construído antes do envelhecimento é o músculo. O tecido muscular esquelético não se resume à estética: participa do metabolismo e funciona como importante reserva de proteínas e aminoácidos. Em períodos de doença e internação, o organismo “pede ajuda” ao músculo: aminoácidos liberados são utilizados para produzir proteínas de defesa e sustentar a atividade dos leucócitos, os “soldados” do organismo. Preservar a força muscular ajuda a manter a marcha, o equilíbrio, a capacidade de levantar-se e a independência.

A prevenção aos 40 inclui não fumar; evitar o excesso de álcool; praticar exercícios aeróbicos e de força; cuidar da alimentação, do sono e da saúde mental; tratar perdas auditivas e visuais; manter-se cognitivamente ativo e preservar vínculos sociais. Adoecer e perder autonomia não são consequências inevitáveis do envelhecimento.

Cuidar da saúde aos 40 anos não significa adiar a vida em nome dos 70 anos. Nas entrelinhas da fábula da formiga e da cigarra, fica uma lição que atravessa gerações: aproveitar o presente sem deixar de se preparar para o futuro, preservando o que mais importa, a independência para viver.

*Arnaldo Pinto Guedes de Paiva Neto é médico geriatra e autor de “Palimpsesto: O corpo que se reescreve”, resultado de um trabalho que integra evidências científicas e reflexão teórica para compreender como a vida preserva informações apesar das constantes mudanças.

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