Organização celebra a data com obras que fortalecem a representatividade e valorizam a diversidade literária e cultural nas bibliotecas comunitárias da Amazônia
O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, é um convite à reflexão sobre a importância da equidade racial, da diversidade e da valorização da cultura afro-brasileira. Segundo o Censo 2022 do IBGE, pela primeira vez desde 1991, a maioria da população brasileira se declara parda, totalizando 92,1 milhões de pessoas (45,3%), enquanto 10,6% se reconhecem como pretas. Juntas, essas identidades representam 55,5% da população do país, o que reforça que falar sobre representatividade é também repensar o que lemos e, sobretudo, quem tem voz nas páginas dos livros.
Com esse olhar, a Vaga Lume, organização sem fins lucrativos que busca fortalecer a prática da leitura e promover o encontro entre os diferentes saberes de comunidades da Amazônia Legal, celebra a data com um conjunto de obras que integram o novo acervo das bibliotecas comunitárias. As histórias escolhidas ampliam o repertório dos leitores e abordam temas como ancestralidade, identidade, pertencimento e a força das mulheres negras, vozes que refletem a pluralidade do Brasil e dialogam com o cotidiano das crianças e jovens da região.
“É fundamental incentivar, desde cedo, as crianças a terem contato com elementos da cultura afro-brasileira. Mas, antes de tudo, é necessário construir caminhos que viabilizem o acesso à literatura com representatividade. É muito recente o movimento de pessoas negras com maior acesso a veículos de publicações, contando suas histórias pela sua perspectiva, sem necessariamente expressar em suas narrativas histórias de dor e sofrimento. Ao contrário, temos visto com grande expressividade livros cujos personagens são conhecidos por exibir seus cotidianos, características físicas de forma muito otimista e orgulhosa”, diz Danila Guedes, educadora da Vaga Lume.

Entre os destaques do acervo está “Terra”, de Yuri De Francco e Carol Fernandes (Companhia das Letrinhas), uma narrativa sensível sobre a relação entre uma neta e sua avó, inspirada nas ceramistas do Vale do Jequitinhonha. O livro celebra a sabedoria ancestral e o poder das mãos que moldam histórias, afetos e futuros.

Em “O Maior Museu do Mundo”, de Caio Zero (Pulo do Gato), o leitor acompanha um menino em uma visita ao museu e descobre, junto a ele, que a arte e o território são espelhos de identidade. Entre pinturas, grafites e memórias, a obra propõe uma reflexão sobre o valor das experiências cotidianas que nos formam.

Já “Cinderela do Rio”, de Mafuane Oliveira (Peirópolis), recria o clássico conto de fadas em um cenário tipicamente brasileiro. A protagonista, Mariazinha, menina nordestina marcada pela perda e pelo trabalho duro, encontra na esperança e na coragem o caminho para transformar o próprio destino — uma história de superação que une encantamento e crítica social.

O premiado “Preto é Lindo!”, de Ashley Bryan (Baião), convida o leitor a mergulhar na tradição oral africana. Inspirado em um conto da Zâmbia, o autor celebra a beleza, o ritmo e a dignidade do ser negro, em uma narrativa vibrante que exalta o preto como cor de potência e beleza.

Com olhar teórico e formativo, “Infâncias e Leituras – Presenças Negras e Indígenas na Literatura Infantil”, organizado por Márcia Licá (Pulo do Gato), reúne autores e pesquisadores como Sonia Rosa e Tiago Hakiy para refletir sobre o papel da representatividade na formação de leitores e mediadores de leitura. A obra, reconhecida com o selo “Altamente Recomendável” da FNLIJ, reforça a importância de construir uma literatura infantil que acolha a diversidade brasileira em todas as suas vozes.
Com mais de duas décadas de atuação, a Vaga Lume reafirma que ler é um ato de pertencimento, resistência e transformação. “É necessário que a leitura esteja presente, e não basta ter somente livros, e é necessário que sejam livros que reflitam a diversidade que se apresenta socialmente. Consideramos indispensável, por exemplo, ter escritos e imagens cujo efeito quando chegar nas mãozinhas das crianças seja espelho, isto é, que haja representatividade, e a literatura pode fazer parte do cotidiano das crianças em qualquer contexto. Ao celebrar o Mês da Consciência Negra, a organização renova seu compromisso em valorizar e fortalecer identidades e promover a equidade por meio da leitura. Que as histórias que constroem o Brasil sigam ecoando vivas nas páginas, nas bibliotecas de todo o Brasil e nas comunidades da Amazônia”, finaliza.
Sobre a Vaga Lume
Criada em 2001, a Vaga Lume está presente em 23 municípios da Amazônia Legal com 97 bibliotecas comunitárias em funcionamento. Neste ano, serão construídas mais cinco bibliotecas, sendo três em Uarini (AM) e duas em Barreirinhas (MA). Desde de sua fundação, já doou 195 mil livros e formou mais de 6 mil mediadores de leitura, voluntários que leem para as crianças, trabalho esse que já impactou a vida de 111 mil crianças e jovens. O seu propósito é empoderar crianças e jovens de comunidades rurais da Amazônia por meio da leitura e da gestão de bibliotecas comunitárias, promovendo intercâmbios culturais com a leitura, a escrita e a oralidade para ajudar a formar pessoas mais engajadas na transformação de suas realidades.
Em 2024, a Associação Vaga Lume recebeu, pela terceira vez, o Selo de Direitos Humanos e Diversidade da Prefeitura de São Paulo. Em 2023, foi eleita pela terceira vez, sendo duas consecutivas, como a Melhor ONG de Educação do Brasil pelo Prêmio Melhores ONGs do Instituto Doar. No mesmo ano foi contemplada pelo novo prêmio United Earth Amazônia, na categoria ESG, da sigla em inglês Environmental, Social, and Corporate Governance (Ambiental, Social e Governança) e, também, foi uma das organizações selecionadas em todo o mundo para receber uma doação da filantropa MacKenzie Scott. Em 2022 foi vencedora do Prêmio Jabuti na categoria Fomento à Leitura. Conheça o mini documentário Vaga Lume no YouTube e acesse o site da associação.















