Clichezinho de abertura: vivemos tempos escorregadios. Tudo parece mover-se depressa demais — valores, urgências, certezas. Estamos cercados por possibilidades quase infinitas em todas as esferas da vida e, ao mesmo tempo, talvez, por isso mesmo, nos sentimos sem chão. A sensação é de estar flutuando num plasma rarefeito de contextos variados. E, quando nos damos conta, já não sabemos direito onde pisar. “É tanta coisa no menu que eu nem sei o que comer”, confessou Raul Seixas na fantástica Como Vovó Já Dizia.
A convivência entre nós tá mais complicada, rápida e vazia. Já entendemos há algum tempo que vivemos em bolhas, mas a pergunta que nos ronda agora talvez seja outra: como lidar com os pontos de contato entre essas bolhas? O que fazer com as interseções inevitáveis, os encontros forçados, os atritos entre visões de mundo que, muitas vezes, mal se toleram?
É indicado – e psicologicamente seguro – atravessar para o outro lado? Vale a pena visitar territórios que nos são estranhos, arriscar uma escuta sincera em ambientes que parecem hostis à nossa própria existência? Ou, insistindo em fazê-lo, estaríamos apenas teimando em trilhar um passeio tenso por terras minadas, desses que a gente evita por instinto?
Sempre que penso nisso, esbarro numa dúvida incômoda: será que o tal “fim das verdades absolutas” chegou mesmo? Pode ser ingenuidade acreditar nisso, eu sei. Mas não dá pra negar que as fronteiras do que chamamos de verdade estão ficando cada vez mais borradas. Dizer com segurança o que é certo ou errado, justo ou injusto, passou a exigir um esforço hercúleo — e, muitas vezes, solitário. Tudo que propõe ação ou reflexão individual é extremamente desconfortável no nosso mundo conectado até os ossos.
As verdades de uma década atrás já não se acomodam tão bem nas caixinhas que inventamos para guardar nossos modelos de normalidade. O problema é que elas – as verdades de 10 anos atrás – continuam aí, vivas e influentes. Hoje, as verdades não morrem. Coexistem. E isso é reflexo direto da ampliação das vozes. Com mais gente podendo falar, outras pautas ganham o púlpito. E quem já estava acomodado com o “mundo como era” se incomoda com essa “perversão de conceitos”.
A verdade absoluta — aquela que usava toga e batia martelo muito rapidamente — está minguando. O que era considerado correto somente porque era “assim e pronto” hoje passa por questionamentos que não costumavam existir. E essa fricção de reflexões perturba. Mas isso não quer dizer que o inverso, o erro evidente, esteja mais fácil de detectar. Caminhamos a passos largos em direção a uma zona cinzenta em relação a esses conceitos. E ela incomoda, porque obriga análise, nuance, tempo — três coisas cada vez mais escassas.
Como reação, vemos surgir as bolhas da homeostase social. Pequenos sistemas de equilíbrio interno onde um grupo estabelece seus próprios parâmetros como o ideal e passa a defender com fervor aquilo que considera “o certo”. Se alguém ousa discordar, vem a fúria: como alguém pode ser contra o que “nós”, os bem informados e bem intencionados já sabemos ser a verdade?
Argumentos? Temos sempre! Pouco importa a natureza de suas origens. O que vale é proteger o nosso pacote de crenças. Vale exagero, fake news, teatralidade, desonestidade intelectual dirigida. Desde que reforce nossa zona de conforto, está valendo. As redes sociais agem como curadoras do caos, distribuindo certezas prontas com a mesma estratégia usada para vender cosméticos ou sabão em pó. A lógica é simples: identifique o desejo ou a dor do outro e ofereça uma solução mágica.
Funciona. Porque mais do que a verdade o que buscamos é alívio. Estamos sobrecarregados de trabalho, de obrigações, de estímulos. Excesso de conteúdo gera confusão mental. Buscamos o alívio em qualquer promessa de conforto – religião, política, arte, drogas – porque sofremos. Queremos parar de sentir a dor que a falta de chão nos causa. Queremos parar de duvidar. A dúvida cansa, enfada, desestabiliza.
Quem está à deriva agarra o primeiro objeto flutuante que aparece — e agradece. Cria apego. Vira
defensor, seguidor, pregador. Se houver mais gente por ali, criam-se comunidades temáticas em que o intuito é concretar certezas e acrescentar fermento à receita escolhida no menu disponível. Mas é bom lembrar que esses menus são dirigidos e oferecidos com precisão. Saiba que nem toda boia salva. Algumas só ajudam a afundar mais devagar e aumentam o sofrimento. Será que você não está nadando em direção à queda d´água? Tem muito veneno disfarçado de analgésico por aí.
E, no fim das contas, talvez seja isso mesmo: nossa maior busca, de modo geral, não é pela verdade — é por equilíbrio, conforto e alívio. Ironicamente, nesse esforço, estamos mais inclinados a abraçar certezas frágeis do que a sustentar perguntas difíceis.
Vai ver o desafio do nosso tempo não é encontrar respostas. É aprender a não fugir das dúvidas. Eu,
obviamente, não quis chegar a respostas aqui. Vim somente suscitar o questionamento, de dentro da minha bolha, deitado no conforto das minhas certezas fugidias, me permiti expor algumas dúvidas. Se você leu até aqui, muito obrigado! Era assim que a gente agradecia antes desse mundo mimizento e cheio de canalhas da bolha vizinha! HAHAHAHA…

















