Especialistas explicam como jornadas mais curtas podem reduzir casos de burnout, lesões por esforço repetitivo, estresse e acidentes de trabalho
O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou força nos últimos meses e costuma ser analisado sob a ótica da produtividade, da economia e das relações de trabalho. Mas a proposta também pode representar um avanço importante para a saúde dos trabalhadores. Segundo médicos, a redução da carga de trabalho tende a diminuir o desgaste físico e mental provocado por jornadas prolongadas, especialmente entre profissionais do comércio, serviços e outras atividades que exigem longos períodos em pé, movimentos repetitivos ou elevado nível de atenção.
O tema ganha relevância diante de um estudo intitulado “Saúde Mental, Modelos de Jornada Laboral e o Paradoxo da Renda Complementar”, desenvolvido no Centro de Inovação da USP, que aponta que 33% dos profissionais pretendem utilizar o tempo livre conquistado com uma eventual redução da jornada para buscar uma renda complementar nos próximos cinco anos. Para especialistas, no entanto, esse período também pode representar uma oportunidade para investir em hábitos que contribuem para a prevenção de doenças e a melhoria da qualidade de vida.
“Quando o trabalhador permanece muitos dias consecutivos em jornadas longas, o organismo tem menos tempo para se recuperar. Isso favorece o surgimento de fadiga crônica, dores musculoesqueléticas, estresse e aumenta o risco de transtornos como ansiedade e burnout. Além disso, o cansaço também eleva a probabilidade de acidentes de trabalho, principalmente em funções que exigem esforço físico ou atenção constante”, explica o médico Hendrick Hoyler, idealizador da MOMA.I, healthtech que utiliza inteligência artificial e validação clínica para ampliar o acompanhamento de pacientes fora do ambiente hospitalar.
Segundo o especialista, setores como varejo, supermercados, shoppings, logística e alimentação estão entre os que mais sofrem com os impactos das jornadas prolongadas. “São profissionais que passam horas em pé, realizam movimentos repetitivos e, muitas vezes, têm pouco tempo para descanso entre uma jornada e outra. Ao longo dos anos, isso pode favorecer o desenvolvimento de lesões por esforço repetitivo (LER/Dort), dores crônicas, alterações no sono e problemas de saúde mental”, afirma.
Na avaliação do médico, uma eventual redução da jornada pode gerar benefícios que vão além do ambiente de trabalho. “Ter mais tempo disponível significa, para muitas pessoas, conseguir dormir melhor, praticar atividade física, manter consultas e exames em dia e até dedicar mais tempo ao convívio familiar. Esses fatores têm impacto direto na prevenção de doenças e na qualidade de vida”, destaca.
Entre os principais benefícios que podem estar associados à redução da jornada de trabalho, os especialistas destacam a redução da fadiga física e mental, menor risco de burnout, estresse e ansiedade relacionados ao trabalho, mais tempo para atividade física, sono adequado e acompanhamento médico, além da redução do risco de acidentes de trabalho relacionados ao cansaço.
“A saúde do trabalhador deve ser considerada um investimento. Quanto maior o equilíbrio entre trabalho, descanso e autocuidado, maiores tendem a ser os benefícios tanto para as pessoas quanto para as organizações”, conclui Hoyler.













