Performance integra as ações do projeto “25 anos do Grupo X”, que lançará ainda em maio o documentário “Grupo X – O extraordinário do Ordinário”
A espera não é ausência. É matéria. É um corpo em trânsito. É o extraordinário do ordinário insistindo em permanecer. A espera, é o mote disparador da inédita proposta do Grupo X de Improvisação em Dança intitulada “Dançando Godot – Relaxed Performance”, a ser apresentada gratuitamente no Museu de Arte da Bahia, nos dias 23 e 24 de abril, das 16h às 20h; e dias 25 e 26 de abril, das 14h às 18h – a cada sessão, dois ciclos de duas horas.
Com livre inspiração na obra “Esperando Godot”, do dramaturgo Samuel Beckett, o novo trabalho do Grupo X de Improvisação em Dança trata da espera, assim como das ausências e dos desejos possíveis de encontros fortuitos; dos rastros deixados pelo que fantasiamos, mas também pelo que é vivido nas ações e relações cotidianas. A espera compreendida como ação, movimento.
Desde de 2014, o “Grupo X” tem como verbo de ação a palavra “espera”. O tempo de presença, de escuta, de disponibilidade para o outro. “O caminho é uma espera em movimento”, afirma a intérprete Camila Nantes. A frase ecoa como princípio da obra. Em “Dançando Godot”, não se trata de aguardar a chegada, mas de habitar o percurso.
O Grupo X está há 28 anos em improvisação. Ao longo desses anos, a investigação atravessou praças, pontos de ônibus, espaços públicos — lugares onde o tempo se alonga e o cotidiano revela sua matéria mais simples. Godot, no Grupo X, são as presenças constantes — aquelas que reaparecem no tempo, que retornam, que permanecem.
A performance
Uma ação da espera. O ato: rasga-se em fragmentos o papelão. O espaço-tempo é desenhado por trajetórias. Relicários que contam as histórias. O tempo, expandido. Em performance, os intérpretes-criadores Edu O. – que ao lado de Fafá Daltro assina a direção, Camila Nantes, Elenilson Azevedo, Lua Candeia, Thiago Cohen e Vinícius Haastari.
Em “Dançando Godot”, o cotidiano e os encontros tornam-se matérias cenográficas e de sonorização, assinadas respectivamente por Cristiano Piton e Débora Mota; e Lucas de Gal. Desvelando a técnica, a iluminação criada por Daniel Utrez é manipulada pelos dançarinos. A trilha sonora nascerá da ambiência e da materialidade dos elementos em cena — o som que brota do papelão, do atrito, do rasgo, do deslocamento.
O papelão surge como elemento central da cena. Matéria ordinária e cotidiana. Não há personagens fixos, mas corpos em trânsito — operários da cena, habitantes do ordinário. “O extraordinário não está no corpo sublime da dança, quase mitológico, mas no corpo comum. O ordinário é o que interessa”, pontua Edu O..
Relaxed Performance
Em “Dançando Godot”, o espaço ficará aberto ao público durante 4 horas, sendo o tempo de duração um fator importante para a fruição de uma relaxed performance. Ao longo do período de performance ininterrupta, o público pode chegar, sair, retornar ou se demorar na visita ao espaço, ou ainda reservar um momento para simplesmente fazer-se presença, descansar, compartilhar um tempo de quietude ou também se interessar pela fruição das ações realizadas pelo elenco em cena.
Relaxed performance é uma proposta ainda inédita na Bahia e pouco difundida no Brasil. Com origem no Reino Unido, na década de 1990, é uma prática que visa repensar as convenções das artes cênicas e tornar as performances mais acessíveis a artistas e plateia, principalmente, as experiências sensoriais no contexto da deficiência e da acessibilidade.
O tempo expandido propicia o acesso cuidadoso de pessoas com ou sem deficiência, mas também pessoas com dificuldade de aprendizagem, síndrome de Tourette, neurodivergentes, pessoas com doenças crônicas e até mesmo famílias com crianças sem deficiência mas que, muitas vezes, são desconsideradas nesses ambientes.
“Antes da performance teremos o cuidado de informar ao público os acontecimentos – se haverá barulho, música, escuridão ou iluminação forte e movimentos abruptos. É importante pontuar que, durante as sessões, teremos uma equipe preparada para acolhimento e espaços de repouso. A experiência sensorial é pensada como direito”, destaca Edu O..
Documentário – “Grupo X – O extraordinário do Ordinário”
Outra realização deste projeto é o lançamento do documentário que desvelará poeticamente a memória do Grupo X com depoimentos e performances de artistas e pesquisadores que se vincularam ao grupo ao longo dos seus mais de 25 anos. Destacam-se os três eixos principais que orientam o fazer-pensar do Grupo X: formação, criação e acessibilidade em Dança. O lançamento do documentário acontecerá na Saladearte Cinema da UFBA, dia 21 de maio, às 19 horas.
Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.
GRUPO X DE IMPROVISAÇÃO EM DANÇA
Criado em 1998 por Fátima Daltro e David Iannitelli como projeto de extensão da Escola de Dança da UFBA, o Grupo X de Improvisação em Dança é uma das mais longevas e relevantes experiências brasileiras na interseção entre criação, acessibilidade e formação em dança. Em 2025 o grupo completa 28 anos de atuação desenvolvendo pesquisas em improvisação e criação coletiva, promove encontros abertos à comunidade e consolida uma poética que valoriza a diversidade de corpos, subjetividades e experiências.
Referência nacional na relação entre dança e deficiência, o Grupo X é pioneiro na pesquisa em audiodescrição aplicada à cena. A investigação, desenvolvida por Fafá Daltro e Eliana Franco, resultou no espetáculo Os 3 Audíveis… Ana, Judite e Priscila (2008), contemplado pelo Prêmio Funarte Klauss Vianna. Desde então, o grupo aprofunda o uso de tecnologias assistivas como ferramenta criativa, integrando acessibilidade à própria dramaturgia da obra — não como recurso adicional, mas como linguagem.
O grupo também se destaca pelo protagonismo de artistas com deficiência em seu núcleo artístico e administrativo. Nomes como Edu O. (com deficiência física) e Natalia Rocha (com deficiência visual) são referências no cenário da arte contemporânea, transformando concepções e modos de produção em dança a partir de suas singularidades.
Entre suas primeiras criações estão Aconteceu Uma Vez e O Extraordinário do Ordinário, obras que já anunciavam o interesse do grupo pelo cotidiano como campo poético e político. Sua trajetória artística reúne espetáculos, performances, videodanças, laboratórios e encontros que marcaram a cena baiana e brasileira, entre eles: Encontra Tempo (2025); a videodança “Dançando Godot” (2022); Se Você Quiser … (2018); Fulaninha’s (2018); entre outras.
Serviço
O quê: “Dançando Godot – Relaxed Performance”, uma obra do Grupo X de Improvisação em Dança
Quando: 23 e 24 de abril, das 16h às 20h; e dias 25 e 26 de abril, das 14h às 18h.
Onde: Museu de Arte da Bahia (MAB) – Corredor da Vitória
Entrada: Gratuita
FICHA TÉCNICA | DANÇANDO GODOT – RELAXED PERFORMANCE
Direção geral: Edu O.
Direção artística: Fafá Daltro
Coreografia: Fafá Daltro e Edu O.
Intérpretes-criadores: Edu O., Lua Candeia, Thiago Cohen, Camila Nantes e Elinilson Soares
Intérprete de Libras e performer: Vinícius Haastari
Coordenação de Produção: Nei Lima
Assistente de produção: Lua Candeia, Soanne Sousa, Elisabetth Feittosa e Eliane Gomes
Cenografia: Cristiano Piton e Débora Mota
Trilha sonora: Lucas de Gal
Iluminação: Daniel Utrez
Consultoria de acessibilidade: Edu O.
Audiodescrição: Adarte Acessibilidade
Arte gráfica: Naiara Rezende
Assessoria de imprensa: Kaô Comunica

















