Por Dra. Carolina Casadei, Médica do Setor de Disfunção Ventricular e Transplante Cardíaco
A insuficiência cardíaca ainda é pouco compreendida fora dos consultórios, e isso mostra como precisamos falar mais sobre o tema de forma clara, simples e responsável. Trata-se de uma condição frequente, séria e progressiva, que interfere na respiração, no cansaço, na disposição e na qualidade de vida. No Brasil, estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas convivam com insuficiência cardíaca e que surjam aproximadamente 240 mil novos casos por ano.¹
Quando ouvimos essa expressão, muita gente associa o diagnóstico a uma ideia imprecisa sobre o funcionamento do coração. De forma simples, a insuficiência cardíaca acontece quando o coração passa a ter dificuldade para bombear o sangue na medida necessária para o corpo funcionar bem. Com isso, começam a surgir sinais que afetam o dia a dia, como cansaço, falta de ar, perda de fôlego ao subir uma ladeira ou fazer esforço, despertares noturnos por falta de ar, inchaço nas pernas e aumento do volume da barriga. ²
Esses sinais nem sempre são reconhecidos logo no início. Muitas pessoas passam um tempo recebendo explicações isoladas para sintomas que já poderiam apontar para insuficiência cardíaca. Às vezes, o cansaço é atribuído apenas à idade, a falta de ar é confundida com um problema respiratório, e o inchaço parece algo sem maior importância. Em muitos casos, o que falta é considerar mais cedo que pode haver uma doença do coração por trás desse conjunto de sintomas. E isso importa porque, quanto mais cedo o diagnóstico é feito, maiores tendem a ser as chances de controlar a doença, aliviar os sintomas e evitar pioras. ²
A insuficiência cardíaca segue crescendo em importância em todo o mundo e no Brasil. Sua incidência vem aumentando em parte porque a população está envelhecendo, mas também porque a medicina avançou. Hoje, mais pessoas sobrevivem a infartos, vivem mais tempo com pressão alta, diabetes e doença renal, e chegam a idades mais avançadas com várias condições de saúde ao mesmo tempo. Além disso, os tratamentos melhoraram, permitindo que muitos pacientes vivam mais do que viviam anos atrás. Como resultado, mais pessoas envelhecem convivendo com a insuficiência cardíaca.¹³
Esse cenário ajuda a explicar por que a doença tem tanto impacto sobre pacientes, famílias e serviços de saúde. A insuficiência cardíaca está relacionada a muitas internações e reinternações, e os números brasileiros mostram que esse ainda é um desafio importante. No registro BREATHE, por exemplo, a mortalidade em 12 meses foi de 27,7%, enquanto as readmissões foram frequentes em 90 dias e ao longo de um ano.³ Isso mostra que estamos diante de um problema que exige cuidado contínuo, acompanhamento e tratamento bem conduzido.
Outro ponto que merece atenção é que a insuficiência cardíaca também pode surgir em contextos que nem sempre são lembrados pela população. Um deles é o tratamento do câncer. Hoje já se sabe que alguns medicamentos usados no combate a tumores podem afetar o coração e, em certos casos, contribuir para o desenvolvimento de insuficiência cardíaca. Por isso, acompanhar a saúde do coração durante o tratamento oncológico se tornou cada vez mais importante.²
Há ainda um alerta que precisa ser feito com clareza, principalmente entre os mais jovens: o uso indevido de anabolizantes pode causar danos graves ao coração. Esse risco é real e pode ter consequências muito sérias. Quando o coração é agredido dessa forma, o resultado pode ser devastador, inclusive em pessoas jovens. Informar sobre isso é uma forma de prevenção e cuidado.
A boa notícia é que a insuficiência cardíaca tem tratamento, e esse tratamento evoluiu muito. Hoje, para muitos pacientes, especialmente aqueles em que o coração perdeu parte importante da sua força de bombeamento, existem quatro grupos principais de medicamentos que ajudam a proteger o coração, reduzir internações e aumentar a chance de viver mais. Em linguagem simples, são remédios que ajudam o organismo a trabalhar com menos sobrecarga, protegem o músculo do coração, reduzem efeitos prejudiciais ligados à retenção de sal e água e também incluem medicamentos que trouxeram benefícios importantes para o coração.²
O desafio é que, apesar de existirem diretrizes claras e tratamento bem estabelecido, esse cuidado ainda não chega da forma ideal para todos. O próprio registro BREATHE mostrou que a baixa adesão aos medicamentos e orientações da equipe como dieta, restrição de líquido, foram algumas das principais razões para a piora do quadro que levou à internação. ³ Outro estudo brasileiro também encontrou uso abaixo do esperado de parte importante do tratamento em pacientes que desenvolveram insuficiência cardíaca após infarto. ⁴ A ciência avançou, mas esse avanço ainda precisa chegar melhor à prática.
Uma mudança importante começa quando passamos a olhar para a insuficiência cardíaca com mais familiaridade e menos desconhecimento. Os sinais costumam aparecer na rotina, muitas vezes de forma gradual, e precisam ser valorizados desde cedo. Falta de ar, cansaço fora do habitual e inchaço persistente merecem investigação, porque o diagnóstico no tempo certo abre espaço para um cuidado mais efetivo e para melhores escolhas ao longo da trajetória do paciente.
Esse movimento depende de informação clara, escuta atenta e condutas bem orientadas. Quando a insuficiência cardíaca é identificada com mais rapidez e tratada de forma adequada, o paciente tem mais chance de manter estabilidade, evitar internações e preservar sua qualidade de vida. É essa consciência que precisa avançar, tanto entre a população quanto entre os profissionais de saúde.² ⁵
Referências:
- Cestari VRF, Garces TS, Sousa GJB, Maranhão TA, Souza Neto JD, Pereira MLD, et al. Distribuição espacial de mortalidade por insuficiência cardíaca no Brasil, 1996-2017. Arq Bras Cardiol. 2022;118(1):41-51.
- McDonagh TA, Metra M, Adamo M, Gardner RS, Baumbach A, Böhm M, et al. 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. Eur Heart J. 2021;42(36):3599-726.
- Albuquerque DC, Barros e Silva PGM, Lopes RD, Hoffmann-Filho CR, Nogueira PR, Reis H, et al. In-hospital management and long-term clinical outcomes and adherence in patients with acute decompensated heart failure: Primary results of the first Brazilian Registry of Heart Failure (BREATHE). J Card Fail. 2023;29:1-12.
- Fiusa VC, Stephanus AD, Couto VF, Alexim GA, Severino TMM, Nogueira ACC, Guimarães AJBA, Soares AASM, Bilevicius E, Batista V, et al. Clinical predictors of heart failure after STEMI: data from a middle-income country with limited access to percutaneous coronary intervention. Arq Bras Cardiol. 2025;122(3):e20240447.
- Koeche C, Nogueira ACC, Amaral GPS, Guimarães AJBA, Neiva YB, Souza AMO, et al. Cost-effectiveness of mineralocorticoid receptor antagonists in ischemic and nonischemic heart failure with reduced ejection fraction: perspective from a universal healthcare system. Value Health Reg Issues. 2025;47:101084.












