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Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro volta ao palco em Salvador com alerta sobre o feminicídio

  • Destaque 2-ribalta, Ribalta, Sub-Editoria Ribalta, Teatro
  • 2026-08-26
  • Sem comentários
  • 4 minutos de leitura

Espetáculo inspirado em um dos crimes mais emblemáticos da história de Salvador será apresentado no Teatro Xisto Bahia, no dia 1º de setembro, e transforma uma tragédia ocorrida em 1847 em reflexão sobre violência contra a mulher e relacionamentos tóxicos.

Uma história de amor que terminou em assassinato, uma bala que atravessou quase dois séculos de memória e uma pergunta que continua atual: quanto tempo ainda será necessário para que a sociedade compreenda que ciúme, posse e controle não são demonstrações de amor? É a partir dessa inquietação que o espetáculo “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro” volta ao palco de Salvador no dia 1º de setembro, terça-feira, às 19h, no Teatro Xisto Bahia, nos Barris.

Com texto e direção de Adson Brito do Velho, a montagem recupera a história de Júlia Clara Fetal, jovem de 20 anos assassinada a tiros pelo ex-noivo, o professor João Estanislau da Silva Lisboa, em 20 de abril de 1847. O episódio, que chocou a sociedade soteropolitana do século XIX, ficou conhecido como o “Crime da Bala de Ouro”, alimentando a história de que o assassino teria confeccionado uma bala utilizando as alianças do próprio noivado.

Quase 180 anos depois, a peça revisita esse acontecimento não apenas como documento da memória de Salvador, mas como uma história que continua encontrando ecos no Brasil contemporâneo. A montagem coloca em cena os mecanismos de posse, ciúme, controle e violência que culminaram na morte de Júlia e propõe ao público uma reflexão sobre os diferentes caminhos que podem levar às situações de violência contra as mulheres.

Com 50 minutos de duração, “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro” combina reconstituição histórica, teatro e memória para apresentar ao público uma Salvador do Brasil Imperial, ao mesmo tempo em que estabelece uma ponte direta com questões urgentes do presente. A atmosfera de época é construída por meio dos figurinos, da iluminação e da trilha sonora, mas o centro da narrativa está na permanência de uma violência que atravessa gerações.

A história começa em uma residência da família Fetal, localizada nas proximidades da Praça da Piedade. Júlia estava acompanhada da mãe e tocava piano quando João Estanislau invadiu o imóvel. Inconformado com o fim do relacionamento, o professor sacou uma arma e disparou contra a jovem à queima-roupa.

O crime teria sido motivado pelo comportamento ciumento e descontrolado do professor, que alimentava a suspeita de que Júlia o traía com Luiz Antônio Pereira Franco, estudante de Direito de Recife que passava férias na Bahia. Nenhuma dessas circunstâncias, porém, é apresentada como justificativa para o assassinato. Ao contrário: a montagem evidencia justamente como argumentos associados à posse e ao controle sobre a mulher foram historicamente utilizados para tentar explicar ou relativizar atos de violência.

De crime histórico a alerta contemporâneo
A proposta de “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro” é fazer com que o passado dialogue diretamente com o presente. Ao reconstruir um feminicídio ocorrido em 1847, o espetáculo convida o público a observar como determinadas ideias sobre relacionamentos e sobre o direito de homens controlarem a vida das mulheres permanecem presentes na sociedade.

Por isso, a apresentação também abre espaço para a escuta. Em razão da temática do espetáculo, será franqueada a palavra, ao final da sessão, para quem desejar compartilhar depoimentos relacionados à violência contra mulheres e aos relacionamentos tóxicos.

A iniciativa amplia o caráter da montagem: o teatro deixa de ser apenas espaço de representação e passa a funcionar também como território de reflexão, memória e diálogo. A história de Júlia, portanto, não termina quando as luzes se apagam. O objetivo é provocar perguntas sobre as formas de violência que podem se manifestar dentro das relações afetivas e sobre a necessidade de reconhecer sinais de controle e abuso.
A escolha de um crime ocorrido há 179 anos também evidencia a dimensão histórica do problema. O que hoje é compreendido como feminicídio possui antecedentes que podem ser encontrados em diferentes períodos da sociedade brasileira. Recontar essas histórias significa também compreender como discursos de ciúme, honra, posse e “paixão” foram utilizados para explicar crimes cometidos contra mulheres.

Uma montagem de atmosfera histórica
A direção de Adson Brito do Velho conduz o espetáculo a partir de uma estrutura que combina um mestre de cerimônias e quatro personagens, criando uma narrativa que transita entre a reconstituição dos acontecimentos e a reflexão sobre o crime.

O desenho de luz, assinado por Eduarda Pires, contribui para a construção do ambiente dramático e de época. A trilha sonora dialoga com a atmosfera do século XIX, reunindo obras de grandes mestres da música daquele período, como Franz Schubert, Johann Strauss e Frédéric Chopin.

Os figurinos foram concebidos por Orlita Cruz, a partir de sua experiência internacional em Buenos Aires, na Argentina, onde teve contato com instituições como o Instituto de Artes Escénicas, o Centro Cultural General Martín e o Instituto de La Voz. A caracterização busca reconstituir visualmente a sociedade soteropolitana de 1847 e transportar o público para o universo em que a história aconteceu.

No palco, Eobelle Rocha interpreta Júlia Fetal; Alexandro Beltrão vive o professor João Estanislau da Silva Lisboa; Orlita Cruz interpreta Juliette Fetal, mãe de Júlia; Sofia Bonfim dá vida à mucama Leonor; e Adson Brito do Velho assume o papel do mestre de cerimônias.

SERVIÇO
Espetáculo: “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro”
Texto e direção: Adson Brito do Velho
Data: 1º de setembro de 2026, terça-feira
Horário: 19h
Duração: 50 minutos
Classificação: Livre
Local: Teatro Xisto Bahia – Rua General Labatut, 27, anexo da Biblioteca Pública do Estado, Barris, Salvador
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Vendas: Bilheteria do Teatro Xisto Bahia e Sympla
Ingressos online: Sympla – Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro

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