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Muito além do colo do útero: HPV também está associado ao câncer de garganta

  • Destaque 1-vitalidade, Saúde, Sub-Editoria Vitalidade, Vitalidade
  • 2026-11-03
  • Sem comentários
  • 5 minutos de leitura

Cirurgiã-dentista Dra. Juliana Búrigo explica a relação entre o vírus e os tumores de orofaringe e destaca a importância da vacinação e do diagnóstico precoce.

O HPV (papilomavírus humano) é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo e, embora seja frequentemente associado ao câncer do colo do útero, também pode estar relacionado ao desenvolvimento de tumores na região da boca e, principalmente, da orofaringe, que inclui as amígdalas e a base da língua. A relação entre o vírus e esses tipos de câncer reforça a importância da prevenção, da vacinação e do acompanhamento odontológico regular.

Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), estima-se que o HPV esteja associado a aproximadamente 60% a 70% dos casos de câncer de orofaringe no país. A proporção pode variar conforme a região e a população analisada.

Para a cirurgiã-dentista Dra. Juliana Búrigo, a conscientização sobre o assunto precisa começar cedo, especialmente antes do início da vida sexual.

“Quando falamos em HPV, muitas pessoas associam o vírus exclusivamente às doenças genitais. No entanto, ele também pode infectar a boca e a garganta e, em determinadas situações, contribuir para o desenvolvimento de câncer. É fundamental que a população conheça esses riscos e saiba que existem formas eficazes de prevenção”, explica a especialista.

Como o HPV pode se manifestar na boca?

A infecção pelo HPV pode permanecer silenciosa durante anos, sem provocar sinais ou sintomas aparentes. Na maioria dos casos, o próprio organismo consegue eliminar ou controlar o vírus. Entretanto, algumas infecções persistentes, especialmente aquelas provocadas por subtipos de alto risco, podem favorecer o desenvolvimento de alterações celulares e, eventualmente, de tumores malignos.

Quando há manifestações visíveis na cavidade bucal, elas podem surgir em diferentes regiões, como língua, gengivas, bochechas, palato e amígdalas. Entre as alterações possíveis estão pequenas verrugas, nódulos e lesões com aspecto semelhante ao de uma couve-flor.

É importante destacar que nem toda lesão na boca é provocada pelo HPV e que os cânceres associados ao vírus nem sempre apresentam alterações visíveis em seus estágios iniciais.

“O acompanhamento odontológico periódico é essencial porque permite identificar alterações na mucosa bucal que muitas vezes passam despercebidas pelo próprio paciente. Quanto mais cedo uma lesão suspeita é investigada, maiores são as possibilidades de um tratamento menos agressivo e com melhores resultados”, destaca Dra. Juliana.

Entre os sinais que merecem investigação estão feridas que não cicatrizam, dificuldade persistente para engolir, dor de garganta prolongada, alterações na voz e presença de caroços no pescoço. Esses sintomas não significam necessariamente câncer, mas precisam ser avaliados por um profissional de saúde.

Sexo oral e HPV: como acontece a transmissão?

O HPV é transmitido principalmente pelo contato direto com a pele ou mucosas infectadas durante atividades sexuais, incluindo o sexo oral. A transmissão pode ocorrer mesmo quando a pessoa infectada não apresenta verrugas ou outros sintomas.

O sexo oral é uma importante via de exposição ao HPV na região da boca e da garganta. Outras possíveis formas de transmissão oral ainda são estudadas, e não há evidências suficientes para considerar o compartilhamento cotidiano de copos, talheres ou canudos uma via habitual de contágio.

“O HPV pode ser transmitido mesmo quando não existem sinais aparentes da infecção. Por isso, a prevenção não deve depender da presença de sintomas. A informação e os cuidados durante as relações sexuais são fundamentais para diminuir o risco de exposição ao vírus”, orienta a cirurgiã-dentista.

Vacinação é uma das principais formas de prevenção

A vacinação contra o HPV é considerada uma das estratégias mais importantes para prevenir infecções pelos subtipos do vírus associados a diferentes tipos de câncer.

No Brasil, a vacina é disponibilizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos, em esquema de dose única. Em 2026, o Ministério da Saúde também prorrogou até 31 de dezembro a estratégia de vacinação de resgate para adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que ainda não foram imunizados. Outros grupos específicos também têm indicação de vacinação conforme as diretrizes do SUS.

A imunização é especialmente recomendada antes do início da vida sexual, pois oferece maior benefício quando administrada antes do primeiro contato com o vírus.

“A vacina contra o HPV é uma importante ferramenta de prevenção do câncer. Precisamos conscientizar os pais e responsáveis de que a imunização ainda na infância e adolescência é uma forma de proteger a saúde dos filhos no futuro. Prevenir uma infecção hoje pode significar evitar uma doença grave anos depois”, ressalta Dra. Juliana.

Além da vacinação, o uso de preservativos e barreiras de proteção durante o sexo oral ajuda a reduzir o risco de transmissão, embora não ofereça proteção absoluta, já que o vírus também pode estar presente em áreas não cobertas.

É necessário evitar o sexo oral?

A relação entre HPV e câncer de orofaringe não significa que as pessoas precisem abandonar a prática do sexo oral. O mais importante é compreender os riscos e adotar medidas preventivas.

O uso de preservativos e barreiras de látex, a vacinação e a redução da exposição a novos parceiros sexuais são medidas que podem diminuir a probabilidade de infecção.

“Não se trata de proibir práticas sexuais, mas de incentivar escolhas conscientes. A população precisa entender que a vacinação e o uso de métodos de proteção são aliados importantes na prevenção do HPV e das doenças associadas a ele”, afirma a especialista.

O papel do dentista vai além dos cuidados com os dentes

A atuação do cirurgião-dentista não se limita à prevenção de cáries e doenças gengivais. Durante as consultas, o profissional também examina os tecidos da cavidade bucal e pode identificar alterações que exigem investigação.

Nos casos de suspeita de lesões relacionadas ao HPV ou de câncer, o paciente pode necessitar de exames complementares, biópsia ou encaminhamento para outros especialistas, como o estomatologista e o otorrinolaringologista.

A prevenção também envolve hábitos saudáveis, como evitar o tabagismo e limitar o consumo de álcool, fatores reconhecidamente relacionados ao desenvolvimento de cânceres de cabeça e pescoço.

“O dentista tem um papel importante na educação e na prevenção. Nosso trabalho não é apenas tratar problemas que já apareceram, mas orientar os pacientes sobre fatores de risco e identificar precocemente alterações que possam comprometer sua saúde. Quando falamos de HPV e câncer, informação e prevenção podem fazer toda a diferença”, conclui Dra. Juliana Búrigo.

A conscientização sobre o HPV, aliada à vacinação, à prevenção nas relações sexuais e ao acompanhamento profissional, é fundamental para reduzir o risco de infecções e de doenças associadas ao vírus. Mais do que combater preconceitos, falar sobre o assunto é uma forma de incentivar o cuidado com a saúde e o diagnóstico precoce.

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