Estudos apontam que o medicamento pode prevenir novas infecções, se incorporado ao SUS
O Brasil registra, em média, 46 mil novas infecções por HIV a cada ano. A chegada do cabotegravir injetável, recentemente comercializado no país, traz uma nova perspectiva para mudar esse cenário. Trata-se de uma aplicação a cada dois meses que reduz de forma significativa o risco de contaminação pelo vírus.
Diferente da profilaxia pré-exposição (PrEP) oral, comprimido diário oferecido pelo SUS desde 2017, o cabotegravir promete maior praticidade e adesão por dispensar o uso diário de medicamentos. Estudos internacionais e brasileiros indicam que a inovação pode prevenir até 385 mil novos casos de HIV no país até 2033.
Segundo o médico infectologista, professor da UNIFESP e CEO da plataforma de educação médica InfectoCast, Dr. Klinger Soares Faico Filho, a diferença fundamental está na adesão:
“A PrEP oral funciona muito bem em quem toma todos os dias, mas muitas pessoas esquecem ou desistem. O cabotegravir resolve esse gargalo porque basta uma injeção bimestral.”, explicou o especialista.
Os números confirmam: entre jovens, homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo, a adesão à PrEP oral varia entre 50% e 60%. Já nos estudos com o cabotegravir injetável, a taxa chegou a 95%.
“Quando a estratégia é simplificada, mais pessoas conseguem se proteger e o impacto na redução de novas infecções é muito maior.”, comentou o Dr. Klinger Faico.
O principal obstáculo, no entanto, é o preço. Cada dose custa cerca de R$ 4 mil na rede privada, valor inacessível para a maioria das pessoas. As populações mais vulneráveis, justamente as que mais precisam, ainda não têm acesso.
“É um dilema ético. Se essa inovação ficar restrita a quem pode pagar, ela deixa de cumprir seu papel em saúde pública e se torna mais um marcador de desigualdade.”, alertou a infectologista.
A ampliação depende da incorporação ao SUS, que aguarda análise técnica do Ministério da Saúde sem prazo definido. O Brasil já foi referência global ao garantir tratamento universal às pessoas vivendo com HIV. Agora, o desafio é repetir esse protagonismo também na prevenção.
E o horizonte é ainda mais promissor, novas drogas estão em desenvolvimento, como o lenacapavir, que pode oferecer proteção por até seis meses com uma única aplicação. Para o Dr. Klinger Faico, a questão central é garantir equidade:
“A ciência está entregando soluções cada vez mais eficazes e convenientes. O desafio é fazer com que cheguem a quem realmente precisa.”, finalizou o médico infectologista.

Dr. Klinger Soares Faico Filho
Médico infectologista, com título de especialista pela Sociedade Brasileira de Infectologia. Doutor em Infectologia pela UNIFESP e MBA em Gestão em Saúde, atua no diagnóstico e tratamento de doenças infecciosas como HIV, hepatites virais e ISTs.
É CEO da plataforma de educação médica InfectoCast, professor universitário da UNIFESP e fundador da Consultoria IRAS, dedicada ao controle de infecção hospitalar.

















