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Projeto Luxúria completa 20 anos em São Paulo e revisita a história do fetiche na noite brasileira

  • Destaque 2-planeta, Planeta, Saia de Casa
  • 2026-09-11
  • Sem comentários
  • 5 minutos de leitura

Criado por Heitor Werneck em 2006, evento atravessou transformações da cultura underground e se tornou referência para uma cena que mistura moda, música, performance e sexualidade

Em setembro, São Paulo será palco da comemoração de duas décadas de um dos projetos mais longevos ligados à cultura fetichista no Brasil. Criado em 2006 pelo estilista e produtor cultural Heitor Werneck, o Projeto Luxúria chega aos 20 anos com uma edição especial marcada para o dia 19 de setembro, na região da República.

A trajetória do evento acompanha mudanças na própria forma como o fetiche passou a ser tratado pela cultura brasileira. Se, no início dos anos 2000, o tema circulava principalmente em clubes, festas e comunidades alternativas, hoje referências ligadas ao BDSM e a outras práticas fetichistas aparecem com frequência na moda, no cinema, na televisão e nas redes sociais.

Nesse intervalo, Werneck construiu uma carreira associada ao universo underground e se tornou conhecido como uma das principais referências brasileiras quando o assunto é fetiche. O apelido de “rei do fetiche” acompanha uma trajetória que começou antes do Luxúria e passa pela moda, pela produção cultural e pela noite paulistana.

Nos anos 1990, Werneck esteve à frente da grife Escola de Divinos, cuja estética incorporava elementos góticos, clubber, punk e fetichistas. O trabalho ajudou a aproximar roupas, comportamento e cultura de clubes em uma época em que a internet ainda não tinha o papel central que ocupa hoje na formação de comunidades e tendências.

O Projeto Luxúria surgiu nesse contexto. A proposta era reunir, em um mesmo ambiente, manifestações que normalmente circulavam separadamente. Moda, música, performances e elementos da cultura fetichista passaram a dividir espaço com uma programação voltada à cena alternativa.

A festa também estabeleceu uma estética própria. O figurino dos participantes, os acessórios e as performances passaram a fazer parte da experiência. Em vez de funcionar apenas como decoração, a roupa assumia papel central na construção da identidade do evento.

Ao longo de duas décadas, o projeto recebeu profissionais de diferentes áreas da cena alternativa, entre DJs, estilistas, performers, modelos, fotógrafos e produtores. O público também mudou. Frequentadores que acompanharam as primeiras edições passaram a dividir espaço com uma geração que conheceu o universo fetichista por meio das redes sociais e da cultura pop.

Essa mudança ajuda a explicar a permanência do Luxúria. O projeto surgiu quando encontrar pessoas interessadas em fetiche dependia, em grande medida, da existência de espaços físicos de convivência. Hoje, comunidades semelhantes podem ser encontradas em plataformas digitais, mas a experiência presencial continua tendo importância para esse tipo de manifestação cultural.

A trajetória do evento também coincide com a maior visibilidade de elementos da estética fetichista na cultura de massa. Peças de couro e látex, corsets, botas, máscaras e outros símbolos associados ao universo passaram a aparecer com mais frequência em editoriais de moda, videoclipes e produções audiovisuais.

O movimento não significa, necessariamente, que a cultura fetichista tenha deixado de ser uma manifestação de nicho. Mas indica uma mudança na circulação de suas referências. Elementos que antes eram identificados principalmente com determinados clubes e grupos passaram a integrar o repertório visual da cultura contemporânea.

No trabalho de Werneck, moda e sexualidade sempre estiveram próximas. A roupa funciona como uma forma de expressão e, em alguns casos, como instrumento para construir personagens e explorar identidades que não necessariamente aparecem no cotidiano.

Essa relação entre corpo, vestuário e performance é um dos pontos de contato do Projeto Luxúria com a história da contracultura. Desde movimentos artísticos e musicais do século 20, grupos ligados à cultura underground utilizam a aparência para questionar padrões de comportamento e representação.

No caso do fetiche, essa discussão ganhou outra dimensão com a popularização do BDSM. Práticas relacionadas à dominação, submissão e bondage passaram a ser mais conhecidas do público, ao mesmo tempo em que aumentou a discussão sobre consentimento e limites.

No ambiente fetichista, consentimento é uma questão central. A existência de uma fantasia ou prática não elimina a necessidade de acordos entre os participantes. Ao contrário, exige que limites sejam definidos e respeitados.

A discussão ganhou relevância com a presença crescente do BDSM na cultura pop. Produções de cinema e televisão ajudaram a popularizar determinados símbolos, mas também contribuíram para ampliar o debate sobre o que é representação ficcional e o que caracteriza uma prática consensual na vida real.

É nesse cenário que o Projeto Luxúria completa 20 anos. A comemoração ocorre em uma São Paulo diferente daquela de 2006, mas em uma cidade que continua sendo um dos principais polos de produção cultural alternativa do país.

A região central, onde está localizada a edição comemorativa, também tem importância na história da noite paulistana. A República e áreas próximas à rua Augusta e à avenida São João concentraram, ao longo de diferentes períodos, bares, clubes, galerias, lojas e espaços frequentados por artistas e públicos ligados à cultura independente.

A escolha da região para a celebração dos 20 anos aproxima o projeto de sua própria história: a de uma cena que encontrou no centro de São Paulo espaço para experimentar novas linguagens.

A edição comemorativa deve reunir antigos frequentadores e novos participantes, em uma espécie de encontro entre diferentes momentos da cultura fetichista brasileira. Para quem acompanhou o projeto desde o início, a celebração representa duas décadas de mudanças na noite e nos modos de falar sobre sexualidade. Para os mais jovens, é também uma oportunidade de conhecer parte da história de uma cena que hoje encontra referências muito mais facilmente na internet.

A longevidade do Luxúria está relacionada justamente à capacidade de acompanhar essas transformações. O projeto manteve a identidade ligada ao fetiche, mas incorporou ao longo dos anos diferentes manifestações artísticas e novas gerações de público.

Ao completar duas décadas, o evento também registra uma transformação na maneira como o fetiche é percebido socialmente. O que antes era tratado quase exclusivamente como assunto privado passou a ser discutido sob perspectivas relacionadas à moda, à arte, ao comportamento e à identidade.

Nesse percurso, Heitor Werneck ocupa uma posição particular. Sua trajetória atravessa diferentes momentos da cultura alternativa paulistana e acompanha a expansão de uma estética que deixou de circular apenas em ambientes específicos para alcançar outros espaços da cultura brasileira.

A história do Projeto Luxúria, portanto, não se resume à realização de festas. Ela se mistura à história de uma cena cultural que encontrou em São Paulo espaço para existir, se organizar e se reinventar.

Depois de 20 anos, o projeto volta à cidade onde construiu sua identidade para celebrar duas décadas de uma trajetória marcada pela interseção entre fetiche, moda, música, performance e comportamento.

Serviço

Projeto Luxúria – 20 anos
Data: 19 de setembro de 2026
Local: Rua Aurora, 710, República, São Paulo (SP)
Classificação: 18 anos
Informações: http://www.projetoluxuria.com.br/

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