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ARTIGO – Psiquiatrização da saúde, qual o futuro possível?

  • Destaque 1-vitalidade, Saúde, Sub-Editoria Vitalidade, Vitalidade
  • 2025-06-04
  • Sem comentários
  • 3 minutos de leitura

Por Marcos Torati, psicólogo, professor e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP

Nos últimos anos, a saúde mental tem ganhado atenção na sociedade brasileira, rompendo o estigma e abrindo espaço para o diálogo e a busca por bem-estar emocional. Contudo, em meio a esse avanço, emerge uma preocupação: a psiquiatrização da saúde, fenômeno que parece moldar cada vez mais a forma como o sofrimento psíquico é compreendido e tratado no país.

De acordo com um estudo feito pela Sandbox, o consumo de medicamentos com foco na saúde mental aumentaram entre os anos de 2022 e 2024. Os dados mostram um aumento de 18,6% no uso de antidepressivos e ansiolíticos.

A sociedade moderna revela uma propensão preocupante à psiquiatrização, motivada pela busca por soluções rápidas e indolores, inclusive para ansiedades razoáveis, tristezas passageiras e estados depressivos naturais da existência. Essa tendência é cada vez mais  influenciada tanto pela lógica da instantaneidade das redes, quanto pela hiperestimulação digital que diminui a tolerância à frustração.

Somado a isso, as pressões do ritmo de vida competitivo, acelerado e desumanizador pode conduzir à medicalização das respostas emocionais naturais dos cidadãos frente à patologia estrutural da sociedade, regida pela lógica produtivista da performance e do consumo. 

O acesso a saúde mental no Brasil

O Relatório Saúde Mental em Dados nº 13 do Ministério da Saúde, publicado em 2025, aponta que existem 3.019 unidades do CAPS no Brasil, porém, regiões como o Norte, Centro-Oeste e Sudeste contam com 0,79, 0,81 e 1,12 unidade do CAPS a cada 100 mil habitantes, respectivamente. O acesso e a qualidade dos tratamentos psicológicos e psiquiátricos no Brasil ainda não é suficiente atualmente e, com isso, existem grandes desafios a serem superados. 

Primeiro, existe uma cobertura limitada e desigual no território nacional dos serviços psiquiátricos e psicológicos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e do Sistema Único de Saúde (SUS). Logo, as pessoas e as regiões com menor recurso socioeconômico são mais prejudicadas, encontrando dificuldades em custear tratamentos particulares. 

Segundo, a proporção de pacientes é maior do que a disponibilidade de profissionais, havendo filas de espera consultas e tratamentos. Por fim, apesar do acesso a teleconsulta, dos avanços da luta antimanicomial e da popularização da psiquiatria, concebo a “psiquiatrização” como um terceiro desafio. 

Quando a prática psiquiátrica  se limita a oferecer tratamentos estritamente medicalizantes, com consultas de curta duração, sem realizar anamneses cuidadosas, onde o paciente se sente tratado como parte de uma linha de produção, existe o risco dessa consulta oferecer um serviço deficitário a população e patrocinar visões patologizantes em relação ao paciente. Sendo assim, esses acontecimentos minam a  oportunidade de auxiliar realmente os pacientes em suas questões psicológicas de forma mais integral.

Como repensar a psiquiatrização?

A crescente tendência à psiquiatrização é impulsionada pela popularização da lógica psiquiátrica norte-americana, que no universo virtual passou a estimular autodiagnósticos e identitarismos psicopatológicos, onde o sintoma vira identidade e a identidade vira sintoma.

Psicólogos clínicos se deparam frequentemente com pacientes que chegam aos consultórios com diagnósticos psiquiátricos preestabelecidos. Essa condição preexistente pode influenciar a autopercepção do indivíduo, fixando-o no sintoma e dificultando a exploração de questões psicológicas mais profundas. 

Muitos pacientes podem, inconscientemente, utilizar o diagnóstico como fuga e justificativa para seus sofrimentos, comportamentos e falta de iniciativa no tratamento, em um fenômeno conhecido como “gozo secundário”.

A centralidade do diagnóstico psiquiátrico também pode levar pacientes a priorizarem o tratamento da “doença” em detrimento de uma visão mais ampla da saúde, que considere fatores biológicos, emocionais, sociais e históricos. Nesse aspecto, o profissional da psicologia é responsável por auxiliar o paciente a compreender que o diagnóstico pode ser um efeito, e não necessariamente a causa fundamental de seu mal-estar.

Encontrar um ponto de equilíbrio entre as intervenções farmacológicas e psicoterapêuticas é a principal alternativa. A psicoterapia é necessária para todos os pacientes psiquiátricos, mas nem todo sofrimento psicológico demanda intervenção medicamentosa. Os profissionais da psiquiatria devem ter em mente que os psicofármacos visam o alívio de sintomas e a estabilização psíquica, facilitando o trabalho psicoterapêutico. 

Psicólogos, por sua vez, devem considerar a medicação como um recurso importante em quadros mais graves, atuando como um agente facilitador do tratamento de determinados pacientes.

Sobre Marcos Torati 

Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, com especialização em psicanálise (abordagem winnicottiana) e psicoterapia focal. É supervisor de atendimento clínico e professor e coordenador de cursos de pós-graduação em Psicologia e Psicanálise.

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