O “viagra feminino”, o peptídeo PT 141 e a testosterona estão entre as possibilidades já aprovadas pelo FDA para tratar alterações do desejo sexual feminino, conforme o diagnóstico e a fase da vida
A perda do desejo sexual não deve ser aceita como uma consequência inevitável do envelhecimento. Para mulheres que chegam aos 45 anos ou atravessam a menopausa, existem tratamentos que vão além das orientações sobre sono, alimentação e saúde emocional e gel de testosterona. Novos medicamentos que agem sobre o cérebro, terapias hormonais e recursos para aliviar o desconforto durante as relações fazem parte das possibilidades de cuidado. A escolha depende da origem do problema, da intensidade dos sintomas e das condições de saúde de cada paciente.
O médico Guilherme Storch explica que o primeiro passo é identificar os vários fatores que estão por trás da mudança. Algumas mulheres deixam de sentir vontade de fazer sexo, enquanto outras preservam o interesse, mas evitam a intimidade por causa da dor, do ressecamento vaginal ou por experiências que não valem a pena serem repetidas. Essa distinção orienta a escolha do tratamento.
“Oferecer testosterona como a única solução para todas as mulheres não resolve o problema. Quando existe uma perda persistente do desejo, podemos considerar medicamentos ou tratamentos que atuam nos mecanismos cerebrais envolvidos na resposta do prazer. Se o problema principal é a dor durante a penetração, precisamos tratar a vagina e a vulva. E na maior parte das situações diferentes abordagens devem ser combinadas para melhores respostas. O importante é entender com atenção quais fatores mudaram e quais recursos podem ajudar aquela paciente”, explica Storch.
Entre os medicamentos voltados ao desejo sexual está a flibanserina, que ficou conhecido como “o viagra feminino” que age na regulação da resposta sexual. Administrada diariamente, ela é aprovada nos Estados Unidos para mulheres com menos de 65 anos que apresentam transtorno do desejo sexual hipoativo adquirido e generalizado. A indicação norte-americana foi ampliada em dezembro de 2025 para incluir mulheres após a menopausa. O medicamento pode provocar sonolência, tontura, queda de pressão e desmaios, além de apresentar interações com álcool e outros remédios.
Outra possibilidade é o peptídeo bremelanotida, também conhecido como PT-141. Diferentemente da flibanserina, trata-se de um medicamento injetável, administrado sob demanda 40 minutos antes da atividade sexual. Sua ação envolve receptores de melanocortina no sistema nervoso central que estão diretamente relacionados ao prazer. Nos Estados Unidos, a aprovação é restrita a mulheres na pré-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo adquirido e generalizado. Náuseas, alterações transitórias da pressão arterial e reações no local da aplicação estão entre os possíveis efeitos adversos. O medicamento é contraindicado para pacientes com hipertensão não controlada ou doença cardiovascular conhecida.
“Esses medicamentos atuam diretamente nos mecanismos envolvidos no desejo, e isso amplia as possibilidades de tratamento para além da testosterona. Mas é importante compreender que a flibanserina e a bremelanotida não têm a mesma indicação e no Brasil ainda não sofreram aprovação da Anvisa. Não estamos falando de uma medicação para melhorar o desempenho sexual, mas de tratar uma condição que causa sofrimento”, afirma Storch.
Esses medicamentos não devem ser confundidos com estimulantes sexuais de uso indiscriminado. As aprovações citadas são da agência reguladora norte-americana, FDA, e não significam autorização automática para comercialização ou prescrição no Brasil.
A testosterona também ocupa espaço importante mas não único nas discussões sobre o tratamento da perda de libido, especialmente após a menopausa. Sua utilização tem sido defendida por urologistas de Harvard e pode ser considerada para mulheres com transtorno do desejo sexual hipoativo. A dosagem do hormônio não estabelece o diagnóstico nem justifica, isoladamente, uma reposição.
“Muitas mulheres me perguntam sobre o valor laboratorial que indica a posição do hormônio. O número que vemos lá não deve ser o principal fator avaliado para decidir por um tratamento. Precisamos avaliar os sintomas, entender o contexto hormonal e verificar se existe indicação clínica. Quando bem selecionado, o tratamento pode beneficiar alguns pacientes, mas exige acompanhamento adequado para entender se está sendo efetivo . O objetivo não é elevar os níveis hormonais indiscriminadamente, mas mantê-los dentro de uma faixa constante e saudável”, explica o médico.
A escolha também muda quando a redução do desejo está acompanhada de sintomas da menopausa. A queda do estrogênio pode justificar a redução da libido na mulher da menopausa, tanto por mecanismo de ressecamento vaginal quanto a ação cerebral do hormônio. A terapia hormonal sistêmica pode ajudar no controle de sintomas menopausais, mas não deve ser apresentada como tratamento específico e universal para a falta de libido.
Há ainda situações em que a dificuldade começa após o uso de antidepressivos. O prescritor pode revisar o tratamento e considerar alternativas, como a bupropiona, que é aprovada pelo FDA para tratamento de baixa libido em mulheres. A suspensão ou troca de medicamentos nunca deve ocorrer por conta própria.
O diagnóstico define o caminho
Nem toda diminuição do interesse sexual representa uma doença. Para investigar o transtorno do desejo sexual hipoativo, o médico considera a persistência da queixa, o sofrimento associado e a possibilidade de outras condições estarem interferindo na resposta sexual. Ter menos vontade do que o parceiro, por si só, não estabelece o diagnóstico.
A avaliação também deve identificar os vários fatores que levaram a mulher a perder o interesse, auto estima baixa, pouca intimidade entre o casal e até sexo desinteressante contribuem muito. Alterações do sono, fadiga, medicamentos em uso e dificuldades no relacionamento podem contribuir para o quadro.
Eventualmente o tratamento pode incluir terapia de casa e intervenções direcionadas aos fatores psíquicos identificados. Essas abordagens não precisam substituir os medicamentos quando existe indicação clínica. Muitas vezes são utilizadas em conjunto.
“A mulher não precisa chegar ao consultório sabendo o nome do problema ou qual medicamento deseja utilizar. Ela precisa ampliar sua consciência para entender o que libido realmente significa para a mulher, a imensa maioria espera se encaixar no modelo masculino de libido, o que gera muita auto cobrança, ansiedade e stress.”, conclui Storch.
Sobre Dr. Guilherme Storch:
Dr. Guilherme Storch é médico especialista em Medicina Preventiva, formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É especialista em Medicina de Família pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), tem pós-graduação em Medicina Funcional e Prevenção do Envelhecimento, além de especialização em Metabolômica e Bioquímica Clínica. Sua formação inclui Medicina de Precisão, Nutrigenômica, Medicina do Sono pela Mayo Clinic, Medicina Corpo e Mente, Saúde da Mulher e Menopausa. Testosterona e Disfunção Sexual pela Universidade de Harvard. Sua prática médica é orientada por uma abordagem funcional de precisão, com foco na prevenção de doenças, no equilíbrio metabólico, na performance e na longevidade individualizada.









