Entre cerca de 150 itens, a mostra percorre a vida e a atuação do educador e revela desde a sua intimidade familiar até as suas contribuições nas políticas públicas educacionais, na concepção e no desenvolvimento da agenda da educação integral do Brasil, que permanecem como legado nos debates atuais
O ano era 1927. Anísio Teixeira (1900-1971) retornava ao Brasil após estudar nos Estados Unidos. Naquele país, ele absorveu as ideias de John Dewey, conceituado filósofo e inspirador da Escola Nova. Em alto-mar, escreveu ao pai Deocleciano que optava definitivamente por dedicar a sua vida à educação. O gesto marcou o início da trajetória de um dos principais formuladores da escola pública brasileira e precursor da educação integral no país. Em 2024 foi declarado Patrono da Escola Pública Brasileira. Hoje, quase um século depois da carta ao pai, o Itaú Cultural (IC), em parceria com o Itaú Social (IS), dedica sua nova Ocupação ao educador. A exposição abre no dia 2 de setembro, a partir das 19h30, e segue até 15 de novembro.
Um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, Anísio Teixeira foi idealizador de experiências precursoras da educação integral, gestor público, intelectual e defensor de uma escola pública gratuita, laica e universal. Nascido em Caetité (BA) no dia 12 de julho de 1900, foi uma pessoa católica e, se não fosse a pressão do pai, teria se tornado jesuíta. Acabou se formando como jurista e educador, tornando-se, mais tarde, escritor.
“A filosofia da escola visa oferecer à criança um retrato da vida em sociedade, com as suas atividades diversificadas e o seu ritmo de preparação e execução, dando-lhe experiências de estudo e de ação responsáveis”, escreveu Anísio no texto Uma experiência de educação primária integral no Brasil, de 1962.
Para Valéria Toloi, gerente de Formação e Fomento do Itaú Cultural, este é um dos preceitos que embasam a educação integral pública como centro de atuação da Fundação Itaú. “Essa é uma das razões que nos estimulou a organizar essa exposição. Toda a construção e articulação de Anísio em torno do tema permanece vivo e pede amplificação ainda hoje”, diz ela. “Ao mesmo tempo, quisemos mostrar para o público a pessoa e a história que está por trás desse educador”, conclui.
A Fundação Itaú – por meio do Itaú Cultural, Itaú Social e Itaú Educação e Trabalho – atua para ampliar o acesso à educação e à cultura como direitos fundamentais e vetores de transformação social a partir de programas, pesquisas, formação e ações de incidência em políticas públicas.
“Cultura e educação são forças transformadoras e, quando convergem, potencializam o desenvolvimento de uma sociedade mais democrática, como acreditava Anísio Teixeira. Educação integral não significa simplesmente expandir o tempo na escola, mas, sim, garantir que o aprendizado em si seja integral a partir do desenvolvimento cognitivo, cultural e socioemocional dos alunos”, diz Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social.
A curadoria da mostra pesquisou os arquivos da família Teixeira e do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, que abriga a quase totalidade de seu arquivo pessoal. Por fim, selecionou cerca de 150 itens para mostrar o caminho de Anisinho, como era chamado quando criança, da Bahia até sua morte aos 71 anos, no Rio de Janeiro. Cartas, fotografias, documentos, publicações, objetos pessoais e depoimentos gravados com familiares e parceiros apresentam aspectos menos conhecidos da vida do homenageado.
Entre os destaques do acervo estão o chapéu usado em viagens internacionais, a máquina fotográfica que registrou sua última imagem em vida e a cédula de mil cruzeiros lançada em sua homenagem, que traz sua efígie e uma representação da Escola-Parque de Salvador.
A exposição
Organizada em cinco núcleos, a mostra parte de uma característica que atravessa toda a sua concepção: a interação, amizade e respeito nutrida entre ele e seus familiares, amigos, intelectuais e autoridades da época. Seja por meio da correspondência trocada, seja por meio de dedicatórias dos autores em seus livros e outros documentos ajudam a construir a narrativa e oferecem uma aproximação direta com o pensamento, as relações pessoais e a atuação pública de Anísio Teixeira. Entre esses escritores, estão Érico Veríssimo, Monteiro Lobato, Thiago de Mello e Jorge Amado; o sociólogo e ensaísta Gilberto Freyre; o historiador e crítico Sérgio Buarque de Holanda; e o compositor e educador musical Heitor Villa-Lobos, entre outros.
O percurso da exposição tem início em Anisinho, núcleo dedicado à esfera familiar. Fotografias, depoimentos de netos e cartas enviadas à esposa, Emília Ferreira Teixeira, revelam um personagem reservado, afeito à convivência familiar e aos livros. Entre os destaques estão registros da casa de Itaipava, no Rio de Janeiro. Ela foi comprada quando as suas duas filhas engravidaram. Com a chegada dos netos se tornou o refúgio da família reunida. Entre outras cenas, este espaço é cenário de finais de semana em família, onde habitam as lembranças mais fortes da infância dos netos. Está ali, por exemplo, a última foto feita dele pelo neto Eduardo Teixeira.
Na sequência, o núcleo Políticas Públicas apresenta sua atuação como formulador e gestor em diferentes momentos do século 20. O espaço apresenta sua participação no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, o trabalho à frente de órgãos públicos ligados à educação, sua passagem pela UNESCO e sua contribuição para a consolidação de instituições que seguem desempenhando papel relevante no país, como o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que hoje também leva seu nome, e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Um dos eixos centrais da exposição é dedicado às Escolas-Parque, projeto que materializou sua defesa da educação integral. Por meio de documentos, fotografias, entrevistas e uma videoinstalação, o visitante acompanha a experiência na Escola Parque 307/308 Sul e em Brasília. O núcleo mostra como Anísio entendia a escola como um espaço de formação ampla, articulando ensino acadêmico, artes, cultura, esporte e convivência social.
A rede de relações construída pelo educador aparece no núcleo Personalidades. Livros com dedicatórias e autógrafos, cartas e registros documentais evidenciam o diálogo mantido com figuras como Jorge Amado, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Manuel Bandeira e Villa-Lobos, entre outros nomes que participaram da vida intelectual e cultural brasileira ao longo do século passado.
Fechando o percurso, o núcleo Imortal aborda a candidatura de Anísio Teixeira à cadeira 36 da Academia Brasileira de Letras, em 1971. A partir de documentos e materiais inéditos relacionados ao processo, a exposição recupera um episódio interrompido por sua morte precoce naquele mesmo ano e propõe uma reflexão sobre a permanência de seu legado na educação brasileira.
Mais do que revisitar a trajetória de um educador, a Ocupação Anísio Teixeira convida o público a compreender a origem de ideias e estruturas que ainda hoje influenciam o debate sobre educação no Brasil. Especialmente aqueles relacionados ao direito à escola pública e à formação integral dos estudantes.
SERVIÇO
Ocupação Anísio Teixeira
Abertura
2 de setembro de 2026, às 19h30
Visitação
até 15 de novembro de 2026
terças-feiras a sábados, das 11h às 20h
domingos e feriados das 11h às 19h
Piso térreo
Curadoria:
Itaú Cultural e Itaú Social
Consultoria:
Ingrid Dittrich Wiggers
Pesquisa:
Vinícius de Oliveira Coêlho (Memorare Serviços Arquivísticos)
Projeto expográfico:
Thereza Faria
Projeto de acessibilidade:
Itaú Cultural
ITAÚ CULTURAL
Avenida Paulista, 149 – próximo à estação Brigadeiro do metrô | Entrada gratuita
Espaços acessíveis
o prédio do Itaú Cultural apresenta facilidades para pessoas com deficiência física
Estacionamento
Entrada pela Rua Leôncio de Carvalho, 108
Com manobrista e seguro, gratuito para bicicletas
Mais informações
Telefone: (11) 2168-1777
WhatsApp: (11) 96383-1663
E-mail: atendimento@itaucultural.org.br













