Presente em pães, massas e bolos, o trigo costuma ser apontado como vilão da alimentação; especialistas ajudam a entender por que desconfortos digestivos e alergias exigem avaliações diferentes
Pão no café da manhã, macarrão no almoço e uma fatia de bolo à tarde. O trigo faz parte da alimentação de milhões de brasileiros, mas também se tornou alvo de dúvidas sobre inchaço abdominal, ganho de peso e intolerâncias. Nas redes sociais, retirar o glúten costuma aparecer como uma solução para diferentes problemas, embora essa mudança não seja necessária para todas as pessoas.
No Dia do Trigo, celebrado em 10 de novembro, as orientações da médica Brianna Nicoletti, com atuação em alergia e imunologia, e do médico Michel Fernandes, com atuação em gastroenterologia, ajudam a esclarecer por que é importante diferenciar alergias alimentares, doença celíaca e desconfortos digestivos antes de excluir alimentos da rotina.
1. Nem todo mundo precisa cortar o glúten
O glúten é um conjunto de proteínas presente no trigo, na cevada e no centeio. Sua exclusão é necessária em condições específicas, como a doença celíaca, mas não representa uma recomendação universal de alimentação saudável. Para quem não apresenta indicação clínica, eliminar o trigo pode restringir desnecessariamente a variedade alimentar.
2. Alergia ao trigo não é a mesma coisa que doença celíaca
A alergia ao trigo envolve uma resposta imunológica a proteínas desse cereal e pode provocar manifestações na pele, no sistema digestivo ou no sistema respiratório. Já a doença celíaca é uma condição autoimune desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas. As duas exigem investigação e condutas diferentes.
3. Não interprete todo inchaço como intolerância
Estufamento, dor abdominal e sensação de digestão lenta podem ter diferentes causas, incluindo hábitos alimentares, constipação, síndrome do intestino irritável e outras condições gastrointestinais. Identificar quando os sintomas aparecem e procurar avaliação profissional é mais seguro do que atribuir automaticamente o problema ao pão ou ao macarrão.
“O estresse não deve ser apontado automaticamente como a causa de uma gastrite. Ele pode agravar sintomas e interferir no funcionamento do sistema digestivo, mas existem doenças que precisam ser investigadas. Quando o paciente apresenta queimação frequente, dor ou sensação persistente de estômago cheio, a avaliação médica é importante para identificar o problema”, ressalta o Dr. Michel Fernandes.
4. Não retire o glúten antes de investigar a doença celíaca
Quando existe suspeita de doença celíaca, retirar o glúten antes dos exames pode prejudicar a interpretação de determinados resultados. A investigação deve ser orientada por um profissional habilitado, que avaliará sintomas, histórico familiar e necessidade de exames específicos.
5. Aprenda a reconhecer reações alérgicas graves
Uma reação alérgica alimentar pode variar de manifestações leves até anafilaxia, situação que exige atendimento de emergência. Dificuldade para respirar, inchaço na garganta e alterações da consciência são sinais de alerta, independentemente do alimento envolvido.
“Um dos erros mais comuns é acreditar que toda alergia começa com pequenas manchas ou coceira. Algumas reações podem evoluir rapidamente e comprometer diferentes sistemas do organismo. Por isso, os pais precisam reconhecer sinais como dificuldade respiratória, inchaço na garganta, prostração intensa e alterações de consciência, que exigem atendimento imediato”, alerta a médica Brianna Nicoletti.
6. Não confunda comer muito com ter alergia
Uma refeição volumosa pode provocar desconforto digestivo, especialmente quando consumida rapidamente ou perto da hora de dormir. Isso não significa que exista uma reação imunológica ao trigo. Observar a quantidade ingerida, a composição da refeição e a recorrência dos sintomas ajuda a orientar a avaliação.
“Um erro comum é passar muitas horas sem comer e depois fazer uma refeição muito grande, principalmente à noite. Isso pode aumentar o desconforto e favorecer episódios de refluxo. O ideal é respeitar os sinais de saciedade, evitar deitar logo após comer e identificar quais alimentos realmente desencadeiam sintomas em cada pessoa”, orienta o Dr. Michel Fernandes.
7. Evite dietas restritivas sem diagnóstico
Excluir alimentos sem necessidade pode dificultar o planejamento nutricional e não resolver o problema original. Quando existem sintomas persistentes, a investigação permite identificar quais restrições são realmente necessárias e quais alimentos podem continuar fazendo parte da rotina.
“A prevenção não significa deixar de viajar ou frequentar restaurantes, mas conhecer os próprios riscos e agir com responsabilidade. No caso das crianças, o mais importante é evitar restrições alimentares sem necessidade, buscar orientação diante de suspeitas e nunca subestimar uma reação alérgica”, destaca Brianna Nicoletti.
Sobre os especialistas
Brianna Nicoletti é médica com atuação em alergia e imunologia, com foco na identificação e no acompanhamento de reações alérgicas.
Dr. Michel Fernandes é médico com atuação em gastroenterologia e emagrecimento.








