Diretor criativo da marca AREIA, Adailton Junior, que já assinou a coordenação de moda em séries da Globo e Multishow, e vestiu artistas como Aline Rosa, BaianaSystem, Igor Kannário, J. Eskine, Márcio Victor e Val Benvindo; assina agora à edição inédita da revista ‘The Salvador Rising Issue’, com moda, arte e ancestralidade baiana.
Acaba de ser lançada a revista britânica “OutThere: The Salvador Rising Issue”, assinadas pelo Experimentalist in Chief, Uwern Jong, e o Creative Director & Co-Founder da OutThere magazine, Martin Perry. Diretamente de Salvador, o destaque da edição ficou à cargo da curadoria de moda e styling do baiano Adailton Júnior, em uma parceria inédita anglobrasileira.
A magazine, distribuída internacionalmente e já disponível em pontos de venda no Reino Unido e mais 20 países do mundo, escolhe a cena afro-brasileira pulsante de Salvador, na Bahia, para projetar toda a herança cultural, espiritual e comunitária da região sob múltiplos olhares; intercalando experiências britânicas e baianas ao mundo.
A capital mais negra fora da África, aos 467 anos, foi a escolha da ‘OutThere’, após a magazine passear pelos territórios históricos da Austrália, Namíbia, Ruanda e Polinésia Francesa. Destino turístico de milhões de pessoas, Salvador foi eleita através de diálogos casuais do fotógrafo e cofundador Martin Perry com jornalistas, guias turísticos, empresários e profissionais criativos de diversas áreas.
“Salvador sempre surgia em conversas individuais com muitos deles (profissionais, jornalistas, guias). Disseram-nos várias vezes que Salvador estava mudando e que muitas coisas interessantes estavam acontecendo aí. Por isso, aproveitamos a oportunidade para torná-la um destino de destaque em nossa edição de verão 2025 e estamos muito felizes por termos feito. Ficamos impressionados com a energia e a criatividade das pessoas e adoramos a autenticidade de sua integridade. A cidade também é linda, tem autenticidade e singularidade. Qualidades que estão se tornando cada vez mais difíceis de encontrar”, relata Perry.
Após a escolha da capital baiana, Martin Perry destaca que o maior desafio estava na seleção do profissional que ditaria o tom da collab internacional. Entre idas e vindas, o Creative Director explica que o nome de ‘Adailton Junior’ foi unânime entre as recomendações solicitadas. Perry conta que a criatividade de Adailton ao criar visuais e o styling das peças era sua fonte constante de satisfação. “Acho que ele (Adailton) conseguiu fazer o styling de uma peça, um colete de crochê, três vezes, e cada vez eu achava que era uma peça completamente diferente. E todas elas ficaram fantásticas”, recorda.
Após o convite, o stylist baiano recebeu a missão de montar e executar o projeto, que, nas palavras de Perry, é assinado com “brilho e imaginação”. Com cinco anos de carreira e passagens criativas na construção visual de duas temporadas do ‘HUMOR NEGRO’, série da Globo&MULTISHOW, além de vestir artistas como Igor Kannário, Márcio Victor, BaianaSystem, ÀTTØØXXÁ, Aline Rosa, Val Benvindo, Beberes, e o cantor da “Resenha do Arrocha”, J. Eskine; a trajetória de Adailton o fez desenvolver um olhar único, detalhista e sensível para cada criação artística.
À frente da curadoria de moda e styling da magazine, o profissional lança um repertório plural aos leitores da ‘OutThere’, traduzindo a moda, arte e cultura de Salvador. O diretor criativo da AREIA é responsável por levar toda a energia mítica e a criatividade da capital às páginas da revista, assinando experiências artísticas únicas ao público internacional.



Raízes históricas e afetivas no berço cultural da Bahia
Nascido em Alagoinhas, interior da Bahia, à 120 km de Salvador e criado na comunidade do Arraial do Retiro na capital, hoje referência no mercado, o designer de moda baiano cresceu observando as nuances e o contexto artístico dos mais diversos bairros e culturas de Salvador. Entre estudos e pesquisas, foi em uma reviravolta durante a pandemia, no ano de 2020, que Adailton abre mão do destino selado pelo tradicionalismo paterno da família, à fim de trilhar seu próprio caminho.
“Salvador é minha grande paixão e assim como eu, a cidade foi escolhida por Orixá. Crescer aqui moldou profundamente quem sou e como expresso minha arte. Nascer na favela é mais desafiador, já que muitas vezes não sobra espaço para arte, em meio à desigualdade e falta de acesso, mas no meu caso, essa dor foi fértil. Ela quem me fez querer mudar o jogo, e acreditar na força do meu sonho e fé. Além disso, meus orixás estão presentes em tudo que faço, como um homem de santo que sou”, afirma o stylist.
Forçado a entrar na faculdade de Medicina Veterinária aos 19 anos, Adailton fez a sua primeira mudança ao trancar o curso e tentar a ‘Gastronomia’, área em que se formou pela Universidade Salvador, com ajuda de sua irmã. Feliz, mas ainda sem encontrar seu verdadeiro propósito, Adailton vendeu pizzas na rua, foi cerimonialista de casamentos e trabalhou com catering no “cinema e audiovisual”, até que, no auge da pandemia (2020), resolveu viver seu sonho e fundou a AREIA. A escolha foi tão assertiva que hoje, cinco anos mais tarde, o stylist baiano se torna o primeiro à receber a honraria de estrear na capa da ‘OutThere’, com a coleção autoral MIMOSA.
Na perspectiva do stylist, o que era um ‘sonho distante’ tornou-se realidade com o passar dos anos. Adailton recorda que a AREIA, tão elogiada por Perry, é o que lhe abriu as portas profissionais da indústria da moda, e que, hoje em dia, se dedica exclusivamente à construção da marca. Usando de referências culturais na construção da AREIA, Adailton explica que a curadoria da revista é verossimilhante às suas referências nativas da “moda”, a exemplo do Ateliê Mão de Mãe, DENDEZEIRO, INTUIÍ, Filipe Dias e sua própria marca; da “música”, com os mestres Gilberto Gil, Margareth Menezes, Caetano Veloso e a nova cena de Melly, Luedji Luna, Sued Nunes; e da “gastronomia”, à partir de pratos como o acarajé.
“Essa identidade é explicada na diversidade, que aqui é uma realidade viva, mesmo com todos os desafios. Salvador é a cidade mais negra fora da África. Um povo majoritariamente negro, conservador em essência, mas com uma incrível capacidade de adaptação. Somos trabalhadores, festeiros e artistas por sobrevivência. A cidade é feita de múltiplas camadas sociais, raciais, de gênero e sexualidade. O maior exemplo dessa interseccionalidade é o nosso Carnaval: uma manifestação que reúne todas essas identidades em torno da arte, da celebração e da resistência. Somos um povo diverso que acolhe com força, fé e estilo”, explica Adailton.
Cena LGBTQIAPN+ na moda e a fuga da marginalização
Segundo Martin Perry, a edição da magazine em Salvador, além de muito especial, elevou os editoriais da revista à outro nível. Apesar do público amplo de leitores, Perry ressalta que a editoria da ‘OutThere’ convida à proximidade e identificação de pessoas LGBTQIAPN+ apaixonadas por viajar, estilo e cultura. A relevância não é traduzida apenas nas páginas lançadas internacionalmente, mas também no backstage da produção e curadoria das peças. Nesse sentido, Adailton recorda o quanto esse olhar artístico aperfeiçoado foi importante, visto que nasceu em um berço da família tradicional brasileira.
“Sou um homem gay, nascido em uma família tradicional que não validava minha forma de existir, meu jeito, minha feminilidade, meu estilo. Entrei na faculdade de Medicina Veterinária por pressão do meu pai e cursei até os 19 anos, quando fui forçado a sair do armário após ser visto beijando um rapaz na rua. Houve uma ruptura familiar: saí da casa do meu pai e logo após, perdi o contato com minha mãe, que até hoje não se relaciona comigo. Sempre fui uma criança afeminada, mergulhada desde cedo no universo da moda e da gastronomia. Eu criava figurinos com retalhos de roupas velhas, inspirado por Joelma, cantora do Norte do Brasil, que sempre me fascinou com sua estética e figurinos impressionantes”, explica.
Com cinco anos no mercado e agora imerso no projeto ‘MIMOSA 2’ – segunda parte da coleção MIMOSA, lançada em 2024 – a nova fase de Adailton traz mais peças autorais, desdobramentos e evoluções, de um processo criativo enraizado desde a sua infância. Assinando a curadoria e a moda artística de uma revista internacional, Adailton celebra essa nova fase da carreira, ao usar arte como instrumento de transformação social. “Sair das favelas de Salvador é um desafio imenso; transformar a arte de um favelado em um produto de luxo, com reconhecimento, é ainda mais difícil. Mas meu desejo de vencer fazendo o que amo é o que me move todos os dias. Sinto que estou no caminho certo e acreditando num lugar coletivo, pretendo chegar muito mais longe junto com os meus”, conclui Adailton.
Ainda sobre a ‘OutThere’, o fotógrafo Martin Perry destaca que marcas como AREIA e Dendezeiro vem inovando a cena de maneira notável. Em um dos seus relatos, o cofundador da revista explica que mal pode aguardar para mostrar aos leitores da ‘OutThere’ o trabalho curatorial de Adailton, mas que sentirá falta do Brasil. “Se eu pudesse, me mudaria para o Brasil e fotografaria aí todos os dias! Já estive aí três vezes (duas no ano passado) e planejo voltar assim que possível. Quando não estou fotografando para a ‘OutThere’, estou colaborando com outros criativos em uma série de projetos, de dançarinos à músicos e artistas. Portanto, o Brasil é o lugar dos sonhos para eu explorar minha própria criatividade. Adoro a atitude positiva e criativa dos brasileiros que tive a sorte de conhecer e seu amor pela vida é absolutamente contagiante. Eu voltarei!”, conclui.















