Por Diego Leite de Barros*
Nunca se falou tanto sobre cuidar do corpo, mas talvez nunca se tenha feito isso com tanta pressa. A cultura da boa forma transformou o exercício em performance e a saúde em aparência. O resultado é uma corrida por resultados rápidos, muitas vezes apoiada em soluções que prometem o que o tempo e o treino constroem de forma mais segura.
O crescimento do apelo “fitness” nas redes sociais reforçou essa lógica da imagem. O corpo passou a ser tratado como um projeto visual, e não como um sistema vivo que precisa funcionar bem. Em vez de buscar vitalidade, muitos passaram a buscar volume e definição, no caso do fisiculturismo, ou distância e “pace”, entre os corredores – para citar duas modalidades muito em voga atualmente. A estética e o tal do “lifestyle” passaram a ocupar o lugar da saúde e do bem-estar.
A recente conquista do Mr. Olympia – uma espécie de mundial de fisiculturismo – pelo atleta brasileiro Ramon Dino voltou a lançar luz sobre um problema histórico observado em academias e – de maneira crescente – entre a comunidade de corrida de rua Brasil afora.São várias as entrevistas em que Dino fala abertamente sobre o uso de anabolizantes, sempre alertando para os riscos dessas substâncias, especialmente entre atletas amadores. Porém, não é só no fisiculturismo que o abuso das chamadas “bombas” preocupa. É cada vez mais comum praticantes de outras atividades, entre elas a corrida, apelarem para terapias hormonais no mínimo controversas.
É o caso da chamada reposição hormonal. Embora um tratamento médico legítimo e reconhecido, prescrito para pacientes com deficiência hormonal comprovada, uma busca simples no Google remete a uma série de anúncios explícitos prometendo performance esportiva por meio desta prática – algo vedado pelo Conselho Federal de Medicina. Já a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) alerta que o uso indiscriminado de esteroides anabolizantes se tornou um fator silencioso de risco cardiovascular, especialmente entre jovens. Ao alterar o equilíbrio hormonal, essas substâncias provocam resistência à insulina, acúmulo de gordura visceral e outros efeitos ligados à síndrome metabólica, condição que aumenta significativamente o risco de infarto e AVC.
Um estudo publicado na revista Sports Medicine Open avaliou 92 praticantes de musculação e encontrou alta prevalência de uso combinado de esteroides, insulina e hormônio do crescimento. Entre os usuários, foram observadas quedas expressivas no colesterol HDL, aumento das enzimas hepáticas ALT e AST e alterações no metabolismo de ácidos graxos, sinais de sobrecarga metabólica. Segundo a Sbem, cerca de 6,4% dos homens brasileiros já usaram anabolizantes, proporção ainda maior entre frequentadores de academias.
O caminho certeiro passa pela combinação equilibrada de estímulos. O treinamento de força mantém a massa muscular e protege as articulações. As atividades aeróbicas, como corrida, ciclismo ou natação, aprimoram a capacidade cardiorrespiratória. A alimentação ajustada e a suplementação individualizada completam o processo. E há um pilar básico que costuma ser esquecido: a hidratação. Antes de qualquer suplemento ou estratégia, vem a água. Sem ela, nada funciona.
Mais do que desafiar o tempo ou moldar um corpo ideal, o verdadeiro desafio é construir um corpo que sustente a vida real. O desempenho muda, a aparência também, e isso é parte da biologia. Treinar é um compromisso com o futuro, não uma disputa contra o tempo.
A conquista que importa não está em parecer atleta, mas em permanecer saudável. Um corpo que se adapta, reage e resiste é a prova mais sólida, e mais inteligente, de performance.
*Diego Leite de Barros é educador físico, especialista em Fisiologia do Exercício pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador de uma equipe multidisciplinar responsável pelo planejamento de treinamento de mais de 500 atletas amadores.















