“Descolonizar a África é libertar o Brasil”. Com esse tema, a 22ª Caminhada da Liberdade, tradicional evento que sai do Curuzu em direção ao Pelourinho, vai marcar o Dia da Consciência Negra (20). A homenagem escolhida recai sobre Burkina Faso, um país que vem dando o que falar na África Ocidental. E mais ainda o seu presidente, Ibrahim Traoré, jovem oficial que tem como inspiração Thomas Sankara e sua política de pan-africanismo.
Segundo o Fórum de Entidades Negras (Feneba), que organiza a marcha, a ideia é levar à juventude, sobretudo, uma mensagem que faça refletir sobre as amarras que impedem a libertação do povo negro, tanto lá como aqui.
Símbolo da luta e resistência contra o jugo colonialista e imperialista europeu no continente africano, aos 36 anos Traoré vem despertando as atenções por liderar um processo de renascimento cultural, econômico e social do país que dirige – situado entre o Benin e o Mali, devastado por sucessivos golpes, rico em minérios, porém desigual em distribuição de renda. Burkina Faso é, hoje, governado por uma junta militar.
Entendendo que o que se passa em África convida a um mergulho na nossa própria história, o Fórum de Entidades Negras da Bahia (Feneba), formado por integrantes do Movimento Negro Unificado (MNU), blocos e entidades culturais como Ilê Aiyé, Muzenza, Malê Debalê, Os Negões, Aganjú, Okambi, Cortejo Afro e FENACAB, decidiu fazer a ponte entre Burkina Faso e a Bahia.
“A luta pela descolonização da África é também a luta pela libertação do Brasil. Burkina Faso hoje é um país em situação frágil, que busca se posicionar e influenciar o continente africano; tem uma realidade que dialoga com a nossa, onde a população, negra na maioria, enfrenta o racismo e uma série de dificuldades em função do processo escravocrata”, explica Raimundo Bujão, presidente do Feneba.
Segundo Antônio Carlos Vovô, presidente do Ilê Aiyê, a escolha de Burkina Faso simboliza a irmandade entre continentes: “Quando olhamos para o povo burquinense e para o presidente Ibrahim Traoré, vemos a mesma coragem que nos move aqui na Bahia. Eles lutam pela soberania do seu país e pela dignidade do seu povo, como nós lutamos pela valorização da nossa história e pela afirmação do negro no Brasil. Essa conexão espiritual e política entre África e Bahia é o que dá sentido à Consciência Negra. Não é só celebração, é memória, é luta, é futuro.”
Burkina Faso, cujo nome significa “Terra dos Homens Íntegros”, foi batizado assim por Thomas Sankara, o “Che Guevara africano”. Assassinado em 1987, o revolucionário rebelou-se contra o poderio francês na região e pregou o nacionalismo. Depois de sua morte, o país mergulhou em um período de sucessivos golpes militares. O próprio Ibrahim Traoré assumiu como chefe de estado após a deposição do regime em 2022.
CICLISMO E MEIO AMBIENTE – A 22ª Caminhada da Liberdade sairá, como de costume, da Senzala do Barro Preto, sede do Ilê Aiyé, no Curuzu, com concentração a partir do meio-dia. O cortejo seguirá em direção ao Centro Histórico, com blocos afro, capoeira, samba de roda, painéis de cidadania e apresentações culturais que celebram a força viva da negritude.
No domingo, 23, a partir das 8h, a programação continua com o 1º Passeio Ciclístico da Consciência Negra e Ambiental, saindo do Jardim de Alah até o Parque Metropolitano do Abaeté. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas na sede do Feneba (Rua Inácio Acioli, 12 – Pelourinho), pelo celular (71) 99158-8807 ou e-mail: forumdeentidadesnegras@gmail.com. Os 250 primeiros participantes receberão camisetas comemorativas.
O presidente do Feneba, Raimundo Bujão, afirma que também é papel da entidade conscientizar a população negra baiana a respeito da luta pelo meio ambiente, importância da transição climática e adoção de modelos de transporte sustentável como a bicicleta, além da necessidade de se inserir no debate sobre a verticalização de Salvador. A 22ª Caminhada da Liberdade conta com apoio do Governo do Estado.















