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A arte como instrumento de denúncia: Lucimélia Romão expõe em suas obras a violência imposta aos corpos negros no Brasil

  • Artes Visuais, Destaque 1-tela, Sub-Editoria Tela, Tela
  • 2026-07-06
  • Sem comentários
  • 5 minutos de leitura

Créditos: Retina Retinta (Mulheres do Lar)

Artista entrou no Programa de Residência Artística Vila Sul em parceria inédita entre Funceb e Goethe-Institut

Lucimélia Romão, bolsista do Programa de Residência Artística Vila Sul, resultado da parceria inédita entre a Fundação Cultural do Estado da Bahia e o Goethe-Institut Salvador-Bahia, tem um propósito com sua arte: ela quer que o observador das suas obras tenha dimensão da violência e opressão que atingem os corpos negros, tome conhecimento do embrutecimento social e se indigne. Para ela, arte é um ato político, mas também um instrumento de transformação pessoal e familiar. “Todos os meus trabalhos são políticos, feitos com o desejo de me expressar e me auxiliar a lidar com as dificuldades com as violências que corpos como o meu são atravessados no Brasil”, resume.

Até o final de agosto, Lucimélia vai ter acesso a espaços de trabalho, contará com acompanhamento técnico e a possibilidade de interagir com outros artistas internacionais dentro do Programa de Residência Vila Sul, iniciativa que o Goethe-Institut Salvador-Bahia mantém há uma década. Dessa forma, ela vai tomar parte de uma experiência de pesquisa, o que potencializa e dá continuidade à iniciativa dos tradicionais Salões de Artes Visuais da Bahia, projeto realizado pela Funceb do qual a artista já teve a oportunidade de participar.

“Sua escolha se destaca, sobretudo, pela convergência entre trajetória, pesquisa continuada, coerência artística e aderência ao programa temático da Vila Sul. O tema de 2026, Tecidos de Narrativas/Fabrics of Narratives, dialoga diretamente com aspectos centrais de sua produção, tanto pela presença das artes têxteis quanto pela elaboração de narrativas sobre corpo, memória, identidade, violência e ancestralidade”, resume Uriel Bezerra, coordenador de Artes Visuais da Diretoria das Artes da Funceb.

“Acredito que as trocas com artistas de diversas culturas vão enriquecer meus trabalhos e ampliar minha visão de mundo acerca das temáticas que abordo. Além disso, acredito que irei aprender novos modos de fazer artístico e possibilitar a internacionalização dos meus trabalhos. Me sinto muito lisonjeada com essa residência e feliz com os encontros que ela irá me proporcionar”, valoriza Romão.

Para Leonel Henckes, diretor de operações da Vila Sul, a parceria inédita com a Funceb é significativa pois fortalece a conexão com a cena artística baiana e amplia o acesso de profissionais a uma rede internacional de intercâmbio e criação. “A presença de uma pessoa artista da Bahia como residente enriquece o programa ao trazer perspectivas e experiências regionais para o diálogo com participantes de diferentes nacionalidades, ao mesmo tempo em que abre caminhos para a internacionalização do pensamento e produção artística da cena local”, declara Henckes.

A artista leva para o contexto do intercâmbio uma mensagem contundente ao pautar a violência de Estado contra corpos dissidentes. “Quando falo do genocídio nas obras Mil Litros de Preto, A Maré Está Cheia e Negreiros, a população pobre, periférica e indígenas estão incluídas. Nas obras Crime de Honra, Mulheres do Lar – Mortes Anunciadas e Quando A Noite Cai, eu abordo a violência de gênero e/ou o feminicídio para com todas as mulheres: as negras, as trans, as indígenas, as brancas e as amarelas. Claro que quando falamos de violências os dados revelam quais raças morrem mais, sabemos que as opressões não vão atingir da mesma forma os diversos corpos, mas todos são afetados por ela, então meu trabalho abraça todos”, pontua.

Menina entre homens – A mãe de Lucimélia tem função fundamental na sua trajetória e obra. Foi ela que atuou como arte-educadora da única menina entre quatro filhos. A artista observa que o seu gênero sempre veio à frente no contexto familiar e, por conta disso, era tratada diferente pelos pais. Junto com a mãe, fez panelinhas de argila, criou colares e pulseirinhas, costurou fuxicos e roupinhas de boneca, entre outras manualidades que a constituíram como artista. Na adolescência, só tinha permissão para sair de casa para estudar e por isso escolheu entrar em um curso de xilogravura pela Casa da Gravura em Jacareí (SP). Fez teatro por meio de cursos livres, frequentou curso técnico e continuou para a graduação e mestrado.

“Ao longo da minha trajetória, a arte tem sido principalmente um instrumento de transformação pessoal e familiar. Cada trabalho que crio tem um objetivo, a exemplo disso a obra Crime de Honra que tem o intuito tirar minha mãe da depressão, por isso utilizo a arte têxtil como técnica pois minha mãe faz crochê. Para além disso, meus trabalhos de dimensão sócio-política têm o caráter informativo/educativo, por isso minhas performances geralmente são criadas a partir de dados”.

A influência da mãe também permeia a escolha de materiais, suportes e linguagens, selecionados a partir de pesquisa, da temática e do objetivo com determinado trabalho. “Quando eu percebi que era importante criar trabalhos com a minha mãe para que ela saísse da depressão, tinha que criar algo a partir do têxtil pois ela trabalha com crochê. Se eu fizesse um espetáculo teatral seria mais difícil incluí-la, por estarmos em espaços geográficos diferentes. Na obra Mil Litros de Preto eu queria estar em cena então fiz a performance, precisava de algo para conter o ‘sangue’, então escolhi os baldes pretos, mas como eles deveriam representar pessoas, decidi colocar etiquetas como as do necrotério com dados informativos”.

A ideia da performance surgiu da informação de que a cada 23 minutos um jovem é assassinado pela polícia brasileira. “Considerando que cada corpo adulto tem em média de 7 a 9 litros de sangue, se eu trabalhasse com a medida de 7 precisamente em 55h, eu encheria uma piscina de 1.000 litros com ‘sangue’ da população preta, pobre e/ou periférica. Aí era importante ter a piscina de plástico que durante a década de 90 era um marco de felicidade das crianças brasileiras, década essa que também foi marcada pelo massacre do Carandiru. A ideia é que essas memórias coletivas sejam acionadas quando o espectador vê o meu trabalho, pois geralmente utilizo materiais cotidianos como baldes, tecidos, piscinas, colheres de pau, linhas e pregos”, descreve.

Parceria inédita – Para Lucimélia Romão, a parceria inédita entre Funceb e Goethe-Institut Salvador-Bahia tem um valor incalculável pois, de modo geral, segundo avalia, não é fácil ter acesso a esse tipo de atividade. “É inenarrável quando Funceb e Goethe  oportunizam isso para o artista baiano tanto para os que fazem a residência, quantos os que não participam mas que passam a vislumbrar essa possibilidade. É muito importante que criem oportunidade de acesso a artistas do território a espaços de formação, fomento, trabalho e intercâmbio”, complementa.

Há quatro anos morando em Salvador, a artista de 37 anos reconhece que a Bahia mexeu com a sua arte. A mudança para a capital baiana veio após o fim da graduação em Teatro e com o curso de Artes Visuais na Universidade Federal do Recôncavo (UFRB). “Primeiro que eu vim estudando, então eu pude conhecer a história da arte baiana de uma forma que jamais conheceria se eu estivesse morando no Sudeste. A gravura baiana, que é uma escola, transformou meu fazer artístico e hoje me auto-declaro uma gravurista contemporânea, formada na escola de gravura baiana”, finaliza.

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