Do “delulu” ao “trollar”, expressões que circulam entre os jovens mostram como identidade, cultura digital e contato com o inglês estão transformando a maneira de se comunicar
“Você está muito delulu.” “Esse look ficou slay.” Expressões como essas fazem parte do vocabulário de muitos adolescentes e mostram que as transformações na linguagem vão muito além das redes sociais.
Palavras em inglês que ganham novos significados, expressões que são adaptadas ao português e gírias que atravessam fronteiras revelam como os jovens estão construindo repertório em contato constante com diferentes culturas e comunidades digitais.
Mas o que essas novas formas de falar dizem sobre a linguagem? Para Caio Albernaz, especialista em Estratégia Pedagógica Bilíngue da International School, mais do que um simples modismo, o fenômeno ajuda a entender como língua, identidade, cultura e tecnologia se relacionam.
Confira cinco aspectos que podem ser observados nesse movimento:
- As palavras carregam mais do que um significado
Uma expressão estrangeira nem sempre é utilizada apenas porque não existe uma palavra equivalente em português. Muitas vezes, ela carrega uma conotação, uma referência cultural ou um contexto que não é completamente preservado pela tradução.
É o caso de slay, por exemplo. A expressão tem origem na cultura ballroom, movimento cultural ligado à cena LGBTQIA+ negra e latina nos Estados Unidos. Com a popularização do termo, ele passou a circular em diferentes contextos, especialmente nas redes sociais.
“A carga semântica dessas palavras muitas vezes não se traduz plenamente, e as pessoas parecem preferir mantê-las no idioma original, mesmo quando não são bilíngues”, explica Albernaz.
Para o especialista, o contexto de criação das expressões também ajuda a explicar sua permanência no idioma original.
- O adolescente não está apenas usando inglês: ele está transformando o português
Feedback, stalkear, trollar, trollei, trollamos. Ao entrar em contato com palavras estrangeiras, os jovens também podem adaptá-las à estrutura do português.
Segundo Albernaz, uma expressão originalmente estrangeira pode assumir diferentes funções dentro da frase: tornar-se substantivo, adjetivo ou até mesmo verbo.
“Essa incorporação pode ocorrer com a fonética adaptada ao português ou não. A palavra pode se transformar em um substantivo (feedback), adjetivo (delulu) ou verbo (trollar, trollei, trollamos) ou até marcador discursivo, como o famoso six-seven”, afirma.
O fenômeno mostra que a língua não é estática. Ela se modifica conforme seus falantes incorporam novas referências, comportamentos e formas de interação.
- Gíria também é uma forma de pertencer
O vocabulário utilizado por um adolescente pode dizer muito sobre os grupos e comunidades dos quais ele participa ou com os quais se identifica.
Uma expressão pode funcionar como uma espécie de “senha” cultural: quem conhece a referência entende não apenas a palavra, mas também o contexto em que ela surgiu.
De acordo com Albernaz, muitas expressões são criadas dentro de comunidades e movimentos culturais específicos e acabam funcionando como marcadores de identidade.
Nesse sentido, utilizar uma determinada gíria pode representar pertencimento, identificação com determinado grupo ou simplesmente familiaridade com uma comunidade digital.
- Conhecer gírias em inglês não significa necessariamente saber inglês
Um adolescente pode entender perfeitamente o que significa crush, feedback, slay ou delulu e ainda assim ter dificuldades para conversar, escrever ou compreender um texto em inglês.
Isso acontece porque exposição a palavras isoladas não é o mesmo que desenvolver competência linguística.
“Aprender inglês significa ser capaz de compreender a língua por meio da escuta, leitura e também de produzi-la por meio da fala e escrita. Conhecer palavras isoladas não representa, necessariamente, o desenvolvimento de habilidades comunicativas complexas”, explica o especialista.
Por outro lado, esse contato cotidiano pode despertar curiosidade e interesse pelo idioma, principalmente quando acontece por meio de conteúdos que fazem parte do universo dos adolescentes, como músicas, filmes, jogos, vídeos e redes sociais.
- O desafio não é abandonar as gírias, mas aprender a escolher como falar em cada situação
Se a linguagem está sempre mudando, o papel da escola não precisa ser impedir que novas expressões sejam utilizadas.
Para Albernaz, o mais importante é desenvolver nos estudantes a capacidade de compreender que diferentes situações exigem diferentes formas de comunicação.
Uma gíria pode fazer sentido em uma conversa entre amigos, enquanto uma apresentação escolar, uma entrevista de emprego ou um texto acadêmico exigem outro tipo de vocabulário.
“Existem diferentes gêneros e contextos comunicativos nos quais os estrangeirismos podem ser bem-vindos. O papel da escola é explorar tanto as transformações da língua quanto a norma-padrão por meio dos gêneros discursivos, ajudando os alunos a compreender o nível de formalidade adequado a cada situação”, afirma.
Assim, em vez de enxergar as novas gírias como um sinal de empobrecimento da língua, é possível entendê-las como parte de um processo natural de transformação — e, ao mesmo tempo, ensinar os jovens a ampliar seu repertório para transitar por diferentes contextos.
Afinal, o vocabulário dos adolescentes está mais pobre?
Não necessariamente. Para o especialista, a presença de palavras estrangeiras não significa, por si só, empobrecimento linguístico.
A riqueza do vocabulário está mais relacionada à diversidade e à qualidade dos conteúdos aos quais o jovem é exposto do que ao fato de ele utilizar ou não palavras em inglês.
“O intercâmbio cultural e linguístico é positivo porque amplia diferentes formas de compreender o mundo. Ainda assim, o empobrecimento de repertório linguístico pode acontecer independentemente da exposição a palavras estrangeiras, já que a riqueza do vocabulário está mais relacionada aos tipos de conteúdo consumidos, seja no TikTok ou em um livro”, conclui Albernaz.













