Em uma cidade onde os muros contam histórias de resistência e ancestralidade, Salvador reafirma seu protagonismo no cenário nacional da arte urbana. Após transformar o Curuzu, território sagrado do movimento negro baiano, o projeto “Tem Arte nas Ruas” agora desembarca no Uruguai, bairro histórico da Cidade Baixa que carrega em suas vidas a memória viva da industrialização soteropolitana e da luta por dignidade.
Salvador se consolidou como um dos principais pólos de arte urbana do Brasil, com mais de 3.000 intervenções catalogadas pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo desde 2019. Segundo dados do Mapeamento da Arte Urbana de Salvador (MAUS), a capital baiana abriga hoje cerca de 470 artistas urbanos ativos, número que cresceu 35% nos últimos cinco anos.

O bairro do Uruguai, situado às margens da Baía de Todos os Santos e parte integrante da Península de Itapagipe, representa um microcosmo da história afro-brasileira. Originalmente um polo industrial que atraiu trabalhadores negros no pós-abolição, hoje o território enfrenta desafios socioeconômicos, mas mantém viva seu poder cultural. “A arte urbana em Salvador não é apenas estética, é política. É uma forma de ocupação territorial que reivindica o direito à cidade e celebra a identidade afro-baiana”, explica Salete Perroni, curada do projeto e uma das maiores referências na arte periférica do país.
Intercâmbio cultural e economia criativa
O “Tem Arte nas Ruas” reunirá 10 artistas nesta etapa, entre baianos e talentos de outros estados brasileiros, para uma ocupação criativa sem precedentes no bairro. Entre os dias 3 e 11 de julho, dez muros e espaços públicos serão transformados em galerias a céu aberto, com lançamento oficial marcado para o dia 12, sábado. Dentre os espaços revitalizados, em parceria com o Escritório Popular de Arquitetura Maré, está a renovação estrutural da Praça Santa Luzia, situada em frente à Escola Luiza Mahin, que representa um espaço de educação comprometido com a valorização da cultura afro-brasileira e a promoção da equidade racial.

Formação e legado
Além da produção dos murais, o projeto vai oferecer nesta etapa 50 vagas para um workshop de grafite em parceria com o Coletivo Artístico MUSAS – Museu de Street Art Salvador . As atividades formativas representam um investimento no futuro da arte urbana soteropolitana, que já revelou talentos como Eder Muniz (Calasans Neto do grafite), artista com reconhecimento internacional e que também integra a iniciativa.
O cenário atual da arte urbana em Salvador reflete uma transformação significativa na percepção pública. De acordo com pesquisa da Fundação Gregório de Mattos, 78% dos soteropolitanos autorizam o grafite como manifestação cultural legítima, contra apenas 45% em 2010. Em uma cidade onde 82% da população se autodeclara negra (IBGE, 2022), a maior fora da África, iniciativas como o “Tem Arte nas Ruas” transcendem o aspecto estético para se tornarem instrumentos de afirmação identitária e de cidadania cultural.
“Tem Arte nas Ruas” é apresentado pelo Ministério da Cultura, Nubank e Larco, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Nubank e Larco, realização da Maré Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal – União e Reconstrução.

















