Professor, humorista e pesquisador, Matheus Buente afirma que jovens ainda sabem menos sobre a Independência da Bahia do que deveriam e defende o fortalecimento da história regional como ferramenta de construção da identidade
Às vésperas das comemorações do 2 de Julho, uma das datas mais importantes da história baiana, o professor de História, humorista e pesquisador Matheus Buente faz um alerta: apesar dos avanços no ensino da Independência da Bahia, a história regional ainda ocupa pouco espaço na formação dos estudantes, especialmente nas escolas particulares.
“Os jovens sabem mais do que sabiam há alguns anos, mas ainda conhecem muito menos do que deveriam. Falta uma atenção maior para a história regional dentro das escolas. Na rede pública isso já acontece com mais frequência, porque muitos professores têm autonomia para trabalhar esses conteúdos. Já nas escolas particulares, a prioridade costuma ser o vestibular e o Enem, e a história local acaba ficando em segundo plano”, avalia.
Para Buente, esse distanciamento tem consequências que vão além da sala de aula.
“Antes de conhecer a história do mundo, é importante conhecer a história do lugar onde você vive. Entender por que seu bairro tem esse nome, quem foram as pessoas que dão nome às ruas, quais acontecimentos marcaram aquela região. Isso também forma cidadãos.”
Criador da série 2 de Julho, lançada em 2023 em parceria com o Grupo Metrópole, o professor acredita que o humor pode ser um caminho para despertar o interesse pelo tema.
“O humor serve para iniciar as conversas. Talvez seja a linguagem mais acessível que existe. Quando você apresenta um assunto de forma divertida, desperta curiosidade. A pessoa pode não sair dali sabendo tudo, mas passa a querer entender mais. Foi isso que tentamos fazer com a série: plantar uma sementinha.”
História que gera pertencimento
Ao longo dos últimos anos, Buente diz ter percebido que a maior transformação acontece quando as pessoas descobrem que a história aconteceu ao lado delas.
“O relato que mais me marcou foi o do zelador do prédio onde moro. Ele me disse que nunca ninguém tinha contado aquela história para ele. Quando alguém entende por que existe o Caboclo, conhece a importância de Cachoeira ou descobre personagens como Maria Felipa, começa a enxergar que essa história faz parte da própria vida. Isso gera pertencimento.”
Entre os episódios que mais despertam curiosidade está a história das Caretas do Mingau, mulheres de Saubara que levavam alimentos aos combatentes baianos durante a guerra.
“Elas atravessavam o cerco português vestidas de branco, usando chapéus de palha, carregando panelas e fazendo barulho pelo caminho. Há relatos históricos de soldados portugueses que acreditavam estar diante de uma batalha espiritual. Acho essa uma das histórias mais fascinantes do 2 de Julho.”
Memória que precisa ser preservada
Na avaliação do historiador, um dos maiores desafios é evitar que a memória popular desapareça com o tempo.
“Existe a história produzida pela academia, que continuará sendo pesquisada. Mas existe também a memória construída pelas pessoas, pelas histórias contadas de geração em geração. Quando deixamos de falar sobre esses personagens e acontecimentos, abrimos mão de uma parte importante da nossa própria identidade.”
Para ele, personagens como Maria Felipa deveriam ocupar um espaço muito maior no imaginário nacional.
“Maria Felipa talvez seja a heroína que mais represente o povo brasileiro. Era uma mulher negra, trabalhadora, marisqueira e independente. É difícil encontrar uma personagem histórica que dialogue tanto com a realidade da maioria da população.”
Mesmo passados mais de 200 anos, Buente acredita que o 2 de Julho continua sendo um tema inesgotável.
“Ainda existem pesquisas em andamento, perguntas sem resposta e novas descobertas acontecendo. O 2 de Julho nunca será um assunto esgotado. Quanto mais a gente fala sobre ele, mais pessoas se interessam pela nossa história. O 2 de Julho deveria ocupar, para os brasileiros, um lugar parecido com o que a Segunda Guerra Mundial ocupa para a historiografia mundial: um tema permanente de estudo, debate e descoberta.”

Sobre Matheus Buente
Professor de História, humorista, palestrante e pesquisador, Matheus Buente atua na popularização da história da Bahia por meio da educação, do humor e da produção de conteúdo.
Em 2023, criou a série 2 de Julho, produzida em parceria com o Grupo Metrópole, utilizando linguagem acessível para aproximar diferentes públicos da história da Independência da Bahia.















