Parte 1
Por Gina Marocci
Em 1763 Salvador perdeu o posto de capital do Brasil para o Rio de Janeiro. Essa passagem não foi muito bem recebida pelos homens de negócios e senhores de engenho, que perceberam o desvio do eixo político-administrativo para o Sudeste como um desprestígio e perigoso à economia açucareira do Nordeste.
Quanto às duas cidades, nos mais de 200 anos de existência, os administradores delas sempre deixaram grandes dívidas à coletividade, principalmente em obras de beneficiamento que resolvessem os problemas de insalubridade, segurança, abastecimento de água e de alimentos. Vivia-se mal nas cidades brasileiras e as câmaras municipais não mantinham projetos de intervenção sistemática nelas, promovendo apenas soluções paliativas para os problemas já crônicos.
O século XVIII foi um período de florescimento populacional desses centros, dentre eles, os dois maiores, Salvador e Rio de Janeiro. As oscilações da economia colonial contribuíram para o adensamento desses núcleos, apesar de, no período da exploração maciça de ouro e de pedras preciosas, na primeira metade do mesmo século, a corrida desenfreada às minas tenha proporcionado um certo desequilíbrio nos centros litorâneos do Nordeste.
A cidade do Salvador abrigava, na segunda metade do século XVIII, cerca de 40 mil habitantes distribuídos em 9 freguesias: Sé, Conceição da Praia, Pilar, Carmo, Santana, S. Pedro e Rosário, consideradas freguesias urbanas; e Brotas e Vitória, que não eram consideradas, ainda, freguesias urbanas. Havia núcleos de expansão extramuros, geralmente impulsionados pela presença de mosteiros, conventos e igrejas. Na cidade alta, o bairro de Santo Antônio Além do Carmo já apresentava acréscimo de novas ruas e construções residenciais. A Palma, a Saúde e o Desterro desenvolviam-se como áreas predominantemente residenciais. Para além do Mosteiro de São Bento, os capuchinhos da Piedade fomentavam a consolidação de novas moradias no seu entorno.
Na cidade baixa, o bairro da Praia, mais precisamente compreendido entre a igreja da Conceição da Praia e o noviciado dos jesuítas da Jequitaia, desenvolvia-se com os seus prédios públicos, como a Alfândega, a Intendência e o Arsenal, além de inumeráveis armazéns, trapiches e residências. Mais distante ainda, o Mosteiro do Montserrat, o Convento da Boa Viagem, as igrejas de Nosso Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora da Penha eram os marcos principais da paisagem bucólica da península de Itapagipe, entre pequenas habitações de pescadores e sedes de chácaras e sítios.
O português Luiz dos Santos Vilhena, professor de grego, inventor e escritor, em suas cartas ao rei (publicadas na década de 1960), afirma que ainda no final do século XVIII Salvador sobrepujava a nova capital da colônia, pelo menos em número de habitantes, compondo-se essa população de um terço de brancos e índios e dois terços de negros e mestiços.
Na planta baseada no levantamento de Joaquim Vieira da Silva (1798), extraída do livro As fortificações portuguesas de Salvador quando cabeça do Brasil, do arquiteto e urbanista Mário Mendonça de Oliveira, estão identificadas 11 edificações, entre fortificações, quartéis e casa da pólvora, no trecho entre o forte de São Pedro e a Soledade, na cidade alta; na cidade baixa, entre a bateria de São Paulo, na Gamboa, e o Noviciado dos Jesuítas (conjunto de São Joaquim). Pode-se perceber como o desenho da cidade toma formas diferentes. Na parte marcada no retângulo vermelho podemos perceber, claramente, ruas alinhadas, quarteirões tendendo à forma quadrada e duas praças bem definidas.

Para além do núcleo inicial surgem novos arruamentos marcados por grande irregularidade, com quarteirões alongados e tamanhos bem diferentes. Tanto na parte alta, quanto na região da marinha, percebe-se a tendência à linearidade na ocupação dos antigos caminhos de acesso, ou a edifícios religiosos ou às fortalezas. Fortalezas essas que, pelo depoimento de Vilhena, não estavam em condições materiais de exercer defesa contra uma invasão na cidade. Estava o porto desprovido de forças navais, ficando facilmente à mercê do inimigo. Da parte da terra, a posição dos fortes, já inseridos na malha urbana colocava em risco os edifícios vizinhos, no caso de troca de tiros de canhão.
Contudo, verifica-se que ainda no século XVIII há a necessidade de redefinição do sistema de defesa. Ao mesmo tempo, sabe-se da precária situação dessas fortalezas, mal conservadas, desprovidas de armamentos e milícia suficiente à proteção da cidade. A presença de engenheiros militares do porte de José Antônio Caldas, nesse período, e que estavam a serviço da Câmara, provoca uma inquietação pela falta de cumprimento das mais simples normas de orientação da cidade, as posturas, que eram bastante limitadas.
Em 1777, José Antônio Caldas elabora o levantamento de um trecho da Cidade Baixa, do Cais da Farinha ao Trapiche do Julião, registro da ocupação da beira-mar por meio de sucessivos aterros provocados por particulares e por ordens religiosas, como os jesuítas, para a construção de casas de taipa. Posteriormente, a Santa Casa da Misericórdia comprou o terreno e construiu nos novos aterros, moradas de casas. Sucessivos aterros, bancados pelo governo local e por particulares, exigiram constantes investimentos e favoreceram a ocupação residencial e comercial da cidade baixa, impulsionada, principalmente, pela importância do porto de Salvador para o comércio de exportação e importação.
Era fundamental assegurar o escoamento da produção para o exterior, principalmente o açúcar que, apesar das oscilações do preço, em 1754, já se exportava cerca de 350 mil arrobas, aumentando-se em 1798 o montante para 600 mil arrobas. Considerando-se que Salvador perde o título de capital do vice-reino em 1763, diante das cifras da exportação e dos consecutivos aterros e melhoramentos da zona portuária, pode-se inferir que, apesar da perda do status de principal cidade, a sua importância comercial, até o início do século XIX, equiparava-se à do Rio de Janeiro. No próximo texto veremos as melhorias que marcaram a cidade na segunda metade do século XVIII.
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, T. de. Povoamento da Cidade do Salvador. Salvador: Fundação CPE, 1978.
CÂMARA, M. P. de A. Conceição e Pilar: freguesias seculares do centro econômico e do porto de Salvador no século XIX. 1988, Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal da Bahia, 1988.
MAROCCI, G. V. P. Salvador, século XVIII: a emergência de novos padrões urbanísticos. 1996, Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1996.
MATTOSO, K. M. de Q. Bahia: a cidade do Salvador e seu mercado no século XIX. São Paulo: HUCITEC; Salvador: Secretaria Municipal de Educação e Cultura, 1978.
OLIVEIRA, M. M. de. As fortificações portuguesas de Salvador quando cabeça do Brasil. Salvador: Fundação Gregório de Matos, 2004.
VILHENA, L. dos S. A Bahia no século XVIII. Salvador: Itapuã, v.1, livro 1, 1996.















