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Solidão urbana: o novo desafio de saúde pública

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  • 2026-03-03
  • Sem comentários
  • 5 minutos de leitura

Divulgação

O planejamento dos municípios estimula o isolamento, sobretudo de idosos, ampliando a incidência de doenças, hospitalizações e mortes

A solidão já não é apenas um desconforto emocional ou um tema reservado à vida dos idosos. Tornou-se um problema de saúde pública global. Segundo relatório recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de uma em cada seis pessoas no mundo vive com sentimentos persistentes de solidão. A entidade criou em 2024 uma Comissão Global de Conexão Social para enfrentar o que considera uma epidemia silenciosa.

A OMS diferencia dois conceitos: isolamento social e solidão. O primeiro é a ausência objetiva de contatos suficientes; a solidão é a experiência subjetiva de desconexão, o sofrimento causado pela diferença entre o número de relações que temos e as que gostaríamos de ter. É possível, portanto, sentir-se só mesmo cercado de gente. Essa distinção é essencial para compreender por que a solidão se tornou um determinante social da saúde.

As evidências são alarmantes. Estudos mostram que pessoas solitárias apresentam risco 30% maior de desenvolver doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e demência. Há aumento de depressão, ansiedade e mortalidade precoce. A OMS estima que cerca de 871 mil mortes por ano estejam associadas direta ou indiretamente à solidão, o equivalente a quase 100 mortes por hora no planeta. O impacto é comparável ao do tabagismo e da obesidade.

Do ponto de vista biológico, a solidão aciona mecanismos de estresse crônico, com liberação de cortisol, ativação do sistema nervoso simpático e inflamação persistente. Isso compromete o sistema imunológico e aumenta a vulnerabilidade a doenças. Comportamentalmente, a pessoa solitária tende a se exercitar menos, alimentar-se pior e negligenciar cuidados médicos. Psicologicamente, a desconexão enfraquece a autoestima e reduz o suporte social.

O fenômeno atinge todas as idades. Embora idosos estejam entre os mais vulneráveis, jovens e adultos também relatam sentir-se desconectados. Pesquisas recentes indicam que cerca de 20% dos adolescentes experimentam solidão significativa. O Brasil não está imune. A urbanização, o envelhecimento populacional e as novas formas de vida, com mais pessoas morando sozinhas, ampliam o problema. A pandemia intensificou a sensação de afastamento.

Enfrentar a solidão exige ação em múltiplos níveis. No campo das políticas públicas, é fundamental reconhecer o tema como questão de saúde. A criação de espaços de convivência e a valorização das redes comunitárias podem reduzir o isolamento. No Brasil, as Unidades Básicas de Saúde poderiam incorporar o tema às ações preventivas, com profissionais perguntando não apenas sobre pressão arterial e glicemia, mas também sobre vínculos e relações sociais.

Médicos e enfermeiros devem estar atentos. Perguntas como “Você tem com quem conversar?” ou “Sente-se sozinho?” ajudam a identificar risco e iniciar o apoio. O tratamento pode incluir encaminhamento a grupos de convivência, estímulo à prática de atividades físicas e fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Em casos mais graves, o suporte psicológico é essencial.

Individualmente, é possível agir. Participar de atividades coletivas, cultivar amizades, dedicar tempo à escuta e ao diálogo são atitudes protetoras. A tecnologia pode aproximar, desde que usada com propósito. Videochamadas e grupos virtuais ajudam, mas não substituem o encontro presencial.

A solidão é uma dor moderna que ameaça nossa saúde tanto quanto as doenças clássicas. Ela fragiliza o corpo e o espírito. O antídoto está na conexão, com a família, os amigos, a comunidade. Cuidar de vínculos é também cuidar do coração, da mente e da vida. A medicina do futuro precisará incluir, ao lado de medicamentos e exames, a prescrição do encontro humano como forma de prevenção e cura.

Gertmann lembra que até mesmo interações breves têm um impacto positivo, pois são formas de nos sentirmos parte de algo maior do que nossas bolhas digitais ou familiares. O risco da homogeneidade, lembra Neu, é o apagamento da diversidade de experiências. “Os casamentos tornam-se mais homogêneos, os bairros tornam-se mais homogêneos, as classes escolares tornam-se mais homogêneas”, diz. E o que se perde com isso é a capacidade de perceber as desigualdades e de construir pontes reais.

Segundo Neu, há um aprendizado importante que precisa ser retomado: a convivência com o outro. “Temos que aprender a aturar uns aos outros novamente”, afirma. E isso não se faz apenas com afinidades, mas com a disposição ao diálogo e ao desacordo respeitoso.

Espaços como praças, cafés, centros culturais e até estádios de futebol são mencionados como importantes pontos de encontro onde pessoas diferentes compartilham o mesmo ambiente — não necessariamente as mesmas ideias. “Eles não estão todos no mesmo canto, mas todos olham para o mesmo campo”, exemplifica Neu.

Gertmann também chama atenção para o risco de perdermos o costume do embate saudável. “Se desaprendermos sobre o embate, vamos desaprender a capacidade de mudança de perspectivas”, alerta. E isso compromete não apenas o diálogo, mas a própria ideia de sociedade.

Precisamos de espaços de convivência

Para enfrentar a solidão, tanto individual quanto coletiva, é preciso criar ou recriar espaços de convivência. Mas também é preciso buscar esses espaços. Neu sugere algo simples: “Ir a um café ou lanchonete em outro bairro da cidade”. A proposta é sair do círculo habitual e se permitir encontrar o inesperado.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) assinala ainda que fatores sociais como pobreza, guerra e violência aumentam o risco de solidão. Por isso, o incentivo a políticas públicas de acolhimento, mobilidade e espaços compartilhados torna-se ainda mais necessário.

No Brasil, o impacto da solidão sobre a saúde da população idosa é evidenciado por levantamentos como a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS, 2019), que apontou que cerca de 25% das pessoas com 60 anos ou mais relataram sentimentos frequentes de solidão. Já o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), indicou que quase 30% das pessoas com mais de 50 anos relataram se sentir sozinhas.

Estudos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apontam que a solidão na velhice não está necessariamente relacionada ao número de pessoas ao redor, mas à qualidade dos vínculos sociais. Em muitos casos, a perda do cônjuge, a distância de familiares, o luto e as barreiras físicas ou cognitivas dificultam a criação e a manutenção de relações significativas. Esses fatores, segundo os pesquisadores, elevam drasticamente o risco de depressão, ansiedade e declínio funcional.

Já a assistente social e pesquisadora Naira Dutra Lemos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que a solidão deve ser considerada um dos “novos gigantes geriátricos”, ao lado da polifarmácia, da fragilidade e das quedas. “Ela precisa ser reconhecida como um fator de risco para hospitalizações e para a perda da autonomia entre pessoas idosas”, destaca.

Nesse contexto, especialistas em gerontologia defendem que o SUS (Sistema Único de Saúde) tem um papel essencial na detecção precoce da solidão, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS), por meio de acolhimento comunitário, escuta qualificada e articulação com políticas intersetoriais.

Enfim, mais do que um sentimento individual, a solidão é um fenômeno social e geracional, atravessado por questões de gênero, raça, mobilidade e acesso à cultura e ao afeto. “Todos somos parte da sociedade e, por isso, cada pequeno gesto de convivência conta”, lembra Claudia Neu. A reconstrução do comum começa quando voltamos a ver no outro alguém com quem é possível dividir não só uma conversa, mas o próprio mundo.

Referências

Lambeck, Petra. “Estilo de vida moderno alimenta a solidão no mundo”. DW Brasil, 21 jul. 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/estilo-de-vida-moderno-alimenta-a-solid%C3%A3o-no-mundo/a-73330651. Acesso em: 23 jul. 2025

Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde 2019: percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9160-pesquisa-nacional-de-saude.html. Acesso em: 23 jul. 2025.

Fiocruz; Ministério da Saúde; UFMG; USP. Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros – ELSI-Brasil. Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 24, supl. 2, 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-549720210001.supl.2.3. Acesso em: 23 jul. 2025.

Neri, Anita Liberalesso; et al. Solidão e depressão na velhice: uma análise longitudinal. Revista Kairós Gerontologia, São Paulo, v. 24, n. 1, p. 7-25, 2021. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/podcast/reporter-sus/2023/08/01/solidao-aumenta-risco-de-depressao-na-terceira-idade. Acesso em: 23 jul. 2025.

Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Conexões sociais e saúde: OMS declara solidão como ameaça global de saúde pública. Washington, D.C., 2023. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/21-6-2023-conexoes-sociais-e-saude-oms-declara-solidao-como-ameaca-global-de-saude-publica. Acesso em: 23 jul. 2025.

(*) Texto escrito sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento.

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