Índice de Felicidade Interna Bruta do Butão chega ao arquipélago brasileiro para medir o bem-estar coletivo dos moradores da região
Entre os dias 1 e 15 de setembro, o arquipélago de Fernando de Noronha será palco de uma iniciativa inédita no Brasil: a aplicação do Índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), cujo trabalho está sendo feito pela Aguama Ambiental e Renata Rocha, fundadora do YOUniversality, plataforma que há mais de dez anos promove jornadas de conhecimento entre o Brasil e o Butão, e em parceria com a Heineken Brasil. O indicador, criado no Butão, busca medir a qualidade de vida e o bem-estar da população sob uma ótica que vai muito além do viés econômico.
A coleta de dados junto aos moradores da região será feita por meio de um aplicativo desenvolvido pela Aguama, que registra as respostas e calcula o índice coletivo de felicidade da população local. O resultado final desse levantamento será apresentado durante o Festival de Sustentabilidade e Turismo da ilha, que acontece entre os dias 16 e 19 de outubro e que contará com a participação de Dasho Karma Ura, presidente do Centro de Estudos do Butão e Pesquisa de Felicidade Nacional Bruta.
De acordo com Caio Queiroz, CEO da Aguama, empresa que atua em Noronha desde 2017 e com forte relacionamento com as lideranças comunitárias, a amostra de informações prevista abrange cerca de 10% da população, com incentivo à participação por meio de sorteios e consulta sobre projetos que podem deixar um legado para Noronha e que sejam prioridades para a própria comunidade.
“Mais do que medir o crescimento econômico, o FIB traz um olhar humano e sustentável para o desenvolvimento da região. Esse indicador nos ajuda a entender como a população se sente, quais são suas necessidades e o que realmente importa para garantir qualidade de vida e um futuro equilibrado para os moradores”, destaca.
A jornada que envolve a vinda do FIB para o Brasil foi construída pela Aguama e Renata Rocha, facilitadora de jornadas transformadoras e que conecta o Brasil e o Butão há mais de uma década. No ano passado, eles trouxeram Dasho Karma Ura, ministro do Butão, para conhecer Fernando de Noronha, culminando na parceria para a implementação do primeiro projeto oficial do FIB fora de seu país de origem.
Para Lívia Torres, diretora de Felicidade da Heineken Brasil, a felicidade coletiva e a sustentabilidade caminham juntas. “A Heineken, em parceria com a Aguama, desde 2018, integra sustentabilidade e o FIB para mostrar que não há verdadeiro progresso sem bem-estar das pessoas e um planeta saudável.”
Queiroz afirma ainda que a intenção é que o FIB dê passos ainda mais largos, abrindo caminho para se consolidar no país como uma nova métrica de impacto socioambiental aplicável a empresas, investidores e gestores públicos.
Por dentro do FIB e relação com os ODS
O FIB nasceu no Butão, em 1972, quando o rei Jigme Singye Wangchuck declarou que a “Felicidade Interna Bruta é mais importante que o Produto Interno Bruto”. Desde então, tornou-se filosofia nacional do país asiático e, em 2012, foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um novo paradigma de desenvolvimento sustentável.
Diferente do PIB, que mede apenas a riqueza produzida, o FIB adota uma perspectiva holística e integra dimensões sociais, culturais, ambientais e espirituais. A metodologia se apoia em quatro pilares: boa governança, desenvolvimento socioeconômico sustentável, preservação cultural e conservação ambiental, e se desdobra em nove domínios, como saúde, bem-estar psicológico, educação, vitalidade comunitária, resiliência cultural, diversidade, padrão de vida, resiliência ecológica, entre outros. O índice utiliza notas que vão de 1 a 5 – quanto mais próximo de 5, maior a felicidade.
O mapeamento feito pela Aguama mostra como os domínios do FIB se conectam às metas globais, incluindo os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que integram a Agenda 2030. Segundo Caio, o bem-estar psicológico, por exemplo, está relacionado aos ODS 3 (saúde e bem-estar) e 16 (instituições eficazes). Já a resiliência ecológica tem vínculos diretos com os ODS 13 (ação climática), 14 (vida na água) e 15 (vida terrestre). “A convergência entre as duas agendas reforça a capacidade do índice de gerar diagnósticos que orientem políticas públicas, investimentos privados e projetos de impacto socioambiental”, enfatiza Queiroz.
No Butão, políticas públicas somente são aprovadas após análise de impacto sobre os domínios do FIB. Se aplicado em escala no Brasil, o índice pode ajudar a reduzir riscos reputacionais, qualificar métricas ESG e abrir espaço para instrumentos financeiros vinculados a resultados socioambientais.
Comunidade aguarda o FIB com expectativa
Para Dora Souza, moradora de Fernando de Noronha, a implementação do FIB na região vai trazer um norte para as melhorias que precisam ser feitas no arquipélago. “Do FIB eu espero clareza sobre o que temos e o que precisa ser melhorado. Saneamento, educação, turismo sustentável e geração de renda são tópicos urgentes e interligados. A metodologia vai nos ajudar a priorizar as ações e encontrar soluções que façam sentido para a nossa realidade”.
Ela destaca ainda o trabalho que vem sendo feito pela Aguama desde 2017, que trouxe novas perspectivas para a ilha. “Eles contribuem não apenas com iniciativas que nos incluem e nos fazem refletir sobre nossa relação com o meio ambiente e com o coletivo. Ou seja, a atuação deles vai além da preservação, promovendo diálogo e oportunidades para todos nós”.
Em relação aos Festivais de Sustentabilidade e Turismo, Dora faz questão de ressaltar que uma das características mais marcantes desse evento é que ele foi pensado exatamente para os moradores. “A comunidade é tratada como protagonista e isso faz toda a diferença. Os debates nos ajudam a distinguir as dificuldades do dia a dia dos problemas estruturais da ilha, além de construir soluções coletivas. Isso fortalece nossa identidade e o sentimento de pertencimento”.
Abertura para novos parceiros
Com os resultados da pesquisa previstos para outubro, a Aguama agora abre espaço para novas empresas se juntarem ao movimento. “O FIB é uma oportunidade única de gerar impacto positivo e legado. Estamos em busca de parceiros que compartilhem dessa visão e queiram se juntar a nós nessa jornada pela felicidade e pelo desenvolvimento sustentável”, reforça Caio.
A intenção, de acordo com o CEO, é buscar novos patrocinadores para escalar a pesquisa, aprofundar diagnósticos por cada domínio do FIB e sua relação com os ODS e implementar projetos importantes para a comunidade que têm o potencial de deixar um legado para a região de Noronha.















